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A Importância de Analisar Gosto e Odor na Água: Da Percepção à Saúde Pública

5 de nov. de 2021
6 min de leitura

Introdução


A água de abastecimento, para ser considerada potável, não deve apresentar riscos à saúde.


Contudo, por vezes, a população a rejeita devido a características organolépticas desagradáveis, como gosto e odor .


Esta rejeição, independente de riscos à saúde, constitui um problema significativo de saúde pública, pois pode levar os consumidores a buscar fontes alternativas de qualidade duvidosa ou reduzir a ingestão hídrica abaixo do necessário para o bem-estar .


Assim, compreender e monitorar estas características não é apenas uma questão estética, mas sim uma condição fundamental para a garantia da aceitabilidade e, por consequência, da saúde da população.



A Química por Trás do Gosto e Odor na Água


Diferentemente do que o senso comum pode sugerir, a percepção de gosto e odor na água não é um fenômeno simples, mas sim um sinal químico complexo.


O paladar e o olfato humanos são sensores extraordinariamente precisos, capazes de detectar certas substâncias em concentrações da ordem de nanogramas por litro (ng/L) .


Isso equivale a uma gota de uma substância odorante em uma piscina olímpica, demonstrando a alta sensibilidade do sistema sensorial humano.


As substâncias que causam estas percepções podem ter diversas origens. Compreendê-las é o primeiro passo para o controle da qualidade da água. Estas origens podem ser divididas em três grandes grupos:



Origem Natural e Microbiológica


Grande parte dos problemas de gosto e odor em mananciais superficiais está associada à atividade de microrganismos, como cianobactérias (algas azuis) e actinomicetos.


Esses organismos produzem metabólitos secundários que, mesmo em concentrações mínimas, são percebidos pelo consumidor.


- Geosmina e 2-Metil-isoborneol (2-MIB): Os compostos mais estudados e clássicos exemplos são a geosmina e o 2-MIB. A geosmina é frequentemente descrita como odor de "terra molhada" ou "mofo", enquanto o 2-MIB é associado a um odor "terroso" e "de mofo" . A presença destas substâncias, como visto em episódios de floração de cianobactérias, pode comprometer gravemente a aceitação da água tratada .

- Outros Compostos: Outras substâncias, como aldeídos, mercaptanos e compostos sulfurosos, podem gerar odores de "peixe", "pântano", "frutal" e "ovo podre" .



Origem Antropogênica e Industrial


A poluição das águas por efluentes domésticos e industriais introduz uma vasta gama de compostos químicos que podem alterar as propriedades organolépticas da água.


Substâncias como fenóis, quando submetidas ao processo de cloração na estação de tratamento, reagem e formam clorofenóis, que conferem à água um odor e sabor "medicinal" ou de "remédio", altamente objetáveis .



Origem no Tratamento e Distribuição


Os processos aplicados para tornar a água potável também podem influenciar seu gosto e odor.


O cloro residual adicionado para desinfecção pode ser percebido como um odor forte de "cloro" ou "piscina".


A interação de subprodutos do tratamento, como as cloraminas, e a degradação de materiais nas tubulações também podem gerar sabores e odores indesejados .



Padrões Regulatórios: O que Diz a Legislação?


Os padrões de potabilidade no Brasil, estabelecidos pela Portaria GM/MS Nº 888/2021 do Ministério da Saúde, que substituiu a Portaria 518/2004, tratam o gosto e o odor como "padrões de aceitação para consumo humano".


Isso significa que a água não deve apresentar gosto ou odor objetável, o que, na prática, significa que não deve ser perceptível e causar rejeição pela população .


Para além do Brasil, a Organização Mundial da Saúde (OMS) também reconhece que a aceitabilidade da água, incluindo seu gosto e odor, é um parâmetro crucial.


Embora não estabeleça valores numéricos fixos para a maioria das substâncias, a OMS ressalta que a água de abastecimento deve ser "aceitável para o consumo humano e para todos os usos domésticos" .


Internacionalmente, outros órgãos utilizam parâmetros numéricos para avaliar a qualidade, como o Threshold Odor Number (TON), também conhecido como Número Limiar de Odor (NLO). O TON é uma medida da diluição necessária para que uma amostra de água perca seu odor percebível.


Por exemplo, a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (USEPA) recomenda um valor de TON ≤ 3 para garantir a aceitabilidade pública, e a Comunidade Europeia estabelece valores entre 2 e 3 .


Métodos de Análise: Da Percepção Humana à Instrumentação


Para a avaliação e controle do gosto e odor, a ciência emprega tanto a sensibilidade humana quanto a precisão de equipamentos.


As metodologias são complementares e essenciais para uma gestão completa da qualidade da água.



Análise Sensorial (Painel Sensorial)


Este método utiliza o nariz e o paladar humanos como instrumentos de medição. A técnica mais difundida e padronizada internacionalmente é a Análise de Perfil de Sabor (Flavor Profile Analysis - FPA), descrita pelos Standard Methods for the Examination of Water and Wastewater.


O FPA emprega um painel de provadores treinados que, utilizando uma terminologia específica, descrevem e atribuem intensidades a diferentes gostos e odores, chegando a um consenso sobre a amostra .


-Vantagens: A análise sensorial é extremamente sensível e reflete diretamente a percepção do consumidor, sendo uma ferramenta poderosa para prever a aceitação da água. Estudos demonstram que painéis treinados produzem resultados mais consistentes e confiáveis, pois a experiência e o treinamento reduzem a variabilidade individual das respostas . A literatura confirma que o Painel Sensorial é eficiente para a previsão de episódios de odor, especialmente aqueles associados à geosmina e 2-MIB, atuando como um sistema de alerta para as companhias de abastecimento .



Análise Instrumental


Para identificar e quantificar as substâncias causadoras, são utilizadas técnicas laboratoriais sofisticadas.


A Cromatografia Gasosa acoplada à Espectrometria de Massas (CG-EM) é a principal ferramenta para a análise química de compostos orgânicos voláteis e semivoláteis, como a geosmina e o 2-MIB.


Essa técnica é essencial para quantificar com precisão essas substâncias, muitas vezes em concentrações na ordem de ng/L, como visto no caso do Lago Guaíba, onde foram detectados níveis de 2-MIB na água bruta que chegaram a 1.985 ng/L, muito acima do limiar de detecção humano, que é de aproximadamente 10 ng/L .


A integração entre a análise sensorial (FPA) e a análise instrumental (CG-EM) é a estratégia mais robusta.


A análise sensorial identifica que tipo de problema existe (ex: odor de mofo), enquanto a análise instrumental identifica qual substância (ex: 2-MIB) está causando o problema, permitindo a implementação de soluções de tratamento específicas.


Conclusão


A análise de gosto e odor em água vai muito além de uma questão de palatabilidade. Trata-se de um parâmetro crítico de saúde pública, segurança hídrica e eficiência de tratamento.


A rejeição da água por suas propriedades organolépticas, motivada pela presença de compostos como geosmina, 2-MIB ou clorofenóis, não pode ser negligenciada, pois coloca em risco o consumo adequado de água, podendo levar a população a buscar fontes inseguras.


A Portaria GM/MS Nº 888/2021, ao estabelecer o padrão de "não objetável", sublinha a importância de uma água que seja não apenas segura, mas também atrativa ao consumo.


A correta avaliação deste problema exige uma abordagem dupla: a sensibilidade do Paladar e Olfato humano, padronizada por meio de painéis sensoriais treinados (como o FPA), e a precisão da análise instrumental, que identifica e quantifica as substâncias causadoras.


O laboratório se posiciona como um parceiro estratégico para garantir a qualidade sensorial da água, oferecendo soluções que combinam ciência, tecnologia e experiência para proteger a saúde e a confiança da população.



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Perguntas Frequentes (FAQ)


1. Por que a água tratada às vezes tem cheiro de terra ou mofo?

Este odor é geralmente causado por compostos produzidos por microrganismos no manancial de abastecimento. Os mais comuns são a geosmina e o 2-Metil-isoborneol (2-MIB), que são metabolizados por algas e bactérias, sendo percebidos pelo olfato humano em concentrações extremamente baixas .


2. O que significa "padrão de aceitação" na legislação da água?

Na Portaria GM/MS Nº 888/2021, o gosto e odor são classificados como padrões de aceitação. Isso significa que a água, para ser considerada potável, não deve apresentar gosto ou odor objetável, ou seja, perceptível e que cause rejeição. É um padrão para garantir que a água seja atrativa para o consumo .


3. Qual a diferença entre a análise por painel sensorial e a análise em laboratório?

A análise sensorial utiliza um painel de provadores treinados para descrever e medir a intensidade dos gostos e odores percebidos, simulando a reação do consumidor. A análise instrumental, como a cromatografia, identifica e quantifica quimicamente as substâncias causadoras, como o 2-MIB. As duas são complementares .





 
 
 

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