Análise de Impurezas por Cromatografia CLAE/UPLC em Fármacos e Cosméticos
Intrdodução
A presença de impurezas em matérias-primas e produtos acabados pode afetar diretamente a qualidade, a estabilidade e, em determinadas situações, a segurança de medicamentos e cosméticos.
Por esse motivo, a análise de impurezas por cromatografia CLAE/UPLC ocupa um papel importante no controle de qualidade de diferentes produtos das indústrias farmacêutica e cosmética.
A Cromatografia Líquida de Alta Eficiência, conhecida pela sigla CLAE ou, em inglês, HPLC – High Performance Liquid Chromatography, permite separar os diferentes componentes presentes em uma amostra e avaliar substâncias que podem estar presentes em concentrações muito inferiores às do componente principal.
A tecnologia UPLC – Ultra Performance Liquid Chromatography segue os mesmos princípios gerais da cromatografia líquida, porém utiliza sistemas capazes de trabalhar com partículas menores e pressões mais elevadas, o que pode resultar em separações mais rápidas, maior eficiência cromatográfica e melhor resolução entre compostos próximos.
No contexto farmacêutico, a análise cromatográfica é especialmente relevante para a investigação de impurezas relacionadas à síntese, produtos de degradação e outras substâncias relacionadas ao princípio ativo.

O que são impurezas em fármacos e cosméticos?
De maneira geral, uma impureza pode ser entendida como um componente presente na matéria-prima ou no produto que não corresponde à substância ou composição pretendida.
Em produtos farmacêuticos, as impurezas podem ter diferentes origens. Algumas são provenientes da própria síntese do insumo farmacêutico ativo, enquanto outras podem surgir durante a fabricação, armazenamento ou degradação do medicamento.
Entre as possibilidades estão:
matérias-primas residuais e intermediários de síntese;
subprodutos de reações químicas;
compostos relacionados ao princípio ativo;
produtos de degradação;
impurezas provenientes de interações entre o fármaco e excipientes;
compostos formados durante os estudos de estabilidade;
contaminantes específicos que necessitem de investigação.
O guia ICH Q3A(R2) aborda as impurezas presentes em novos insumos farmacêuticos ativos de origem química, enquanto o ICH Q3B(R2) trata principalmente de produtos de degradação encontrados em medicamentos acabados.
No Brasil, a Anvisa estabelece ainda requisitos específicos para a investigação de produtos de degradação e estudos de degradação forçada por meio da RDC nº 964/2025.
A norma estabelece parâmetros relacionados à notificação, identificação e qualificação dessas substâncias em medicamentos contendo insumos farmacêuticos ativos sintéticos e semissintéticos.
Nos cosméticos, o conceito deve ser analisado conforme a formulação e a natureza da substância investigada.
Determinados compostos podem surgir como resíduos de matérias-primas, contaminantes do processo, substâncias secundárias ou produtos de degradação.
Diferentemente dos medicamentos, não existe um único limite genérico de impurezas aplicável a todos os cosméticos.
A avaliação deve considerar a identidade da substância, as especificações do produto, as matérias-primas utilizadas e as restrições sanitárias aplicáveis.
Em 2026, por exemplo, a Anvisa atualizou as listas de substâncias restritas e proibidas em produtos de higiene pessoal, cosméticos e perfumes por meio das RDCs nº 1.029/2026 e 1.030/2026, reforçando a necessidade de avaliar individualmente as substâncias presentes nas formulações.
Como funciona a análise de impurezas por CLAE/UPLC?
A análise começa com o preparo adequado da amostra. Dependendo do produto, pode ser necessário realizar etapas de dissolução, diluição, extração, filtração ou outros procedimentos antes da introdução no equipamento.
Após o preparo, a solução é injetada no sistema cromatográfico.
Dentro da coluna cromatográfica, os componentes da amostra interagem de formas diferentes com a fase estacionária e com a fase móvel.
Essas diferenças permitem que os compostos sejam separados e cheguem ao detector em momentos distintos.
O resultado é representado por um cromatograma, no qual diferentes compostos aparecem como picos.
O princípio ativo ou substância principal geralmente apresenta um pico predominante. Impurezas e produtos de degradação podem aparecer como outros picos, desde que estejam dentro da capacidade de detecção do método empregado.
A posição do pico, seu tempo de retenção, sua área e a comparação com substâncias de referência ou outros critérios analíticos podem ser utilizados para identificação e quantificação.
Em métodos destinados à análise de impurezas, um dos maiores desafios é justamente separar adequadamente compostos estruturalmente semelhantes ao componente principal.
Por isso, parâmetros como seletividade, resolução cromatográfica, sensibilidade, precisão e linearidade são fundamentais para a confiabilidade do resultado.
Qual a diferença entre CLAE e UPLC?
Tanto CLAE quanto UPLC pertencem à cromatografia líquida instrumental e podem ser aplicadas à análise de impurezas.
A CLAE é amplamente utilizada em laboratórios de controle de qualidade e possui aplicações consolidadas em métodos farmacopeicos e procedimentos internos.
A UPLC utiliza sistemas capazes de operar em pressões mais elevadas e, normalmente, colunas com partículas menores.
Na prática, isso pode permitir:
redução do tempo de análise;
maior eficiência de separação;
melhor resolução entre determinados picos;
menor consumo de solventes em alguns métodos;
aumento da produtividade analítica.
Entretanto, isso não significa que UPLC seja automaticamente superior à CLAE em todas as situações.
A técnica mais adequada depende da matriz, dos compostos pesquisados, das especificações exigidas e do método analítico disponível ou desenvolvido para aquela finalidade.
Um método CLAE bem desenvolvido e validado pode apresentar desempenho totalmente adequado para determinadas aplicações.
Por que é necessário separar o princípio ativo das impurezas?
Um método destinado somente à determinação da concentração do princípio ativo pode não ser suficiente para avaliar seu perfil de impurezas.
Isso acontece porque alguns produtos de degradação ou substâncias relacionadas podem apresentar propriedades químicas semelhantes às do composto principal.
Se o método não possuir seletividade suficiente, dois compostos podem apresentar respostas muito próximas ou até mesmo sobrepostas.
Por isso, para a análise de impurezas é particularmente importante utilizar um método capaz de demonstrar que a resposta obtida para cada composto não sofre interferências relevantes de outros componentes da amostra.
Essa característica é especialmente importante em métodos indicativos de estabilidade, utilizados para acompanhar alterações químicas que podem ocorrer durante o período de validade de um medicamento.
A RDC nº 964/2025 reforça a utilização de estudos de degradação forçada como ferramenta para conhecer as vias de degradação do produto e demonstrar a capacidade do procedimento analítico de acompanhar adequadamente esses compostos.
Identificação, notificação e qualificação de impurezas
Na área farmacêutica, detectar uma impureza não significa necessariamente que o produto esteja automaticamente reprovado.
A interpretação depende da concentração encontrada, da dose do medicamento, da identidade e toxicidade da substância e dos limites regulatórios aplicáveis.
Os conceitos de limite de notificação, limite de identificação e limite de qualificação são utilizados para definir diferentes níveis de investigação das impurezas.
Quando uma impureza ultrapassa determinados limites, pode ser necessário identificá-la quimicamente ou apresentar dados capazes de demonstrar a segurança da exposição proposta.
Atualmente, a Anvisa informa que a avaliação de impurezas e produtos de degradação deve considerar, conforme aplicável, a RDC nº 964/2025 e os guias ICH da série Q3.
Impurezas potencialmente mutagênicas também devem ser avaliadas conforme os princípios do ICH M7(R2).
Em agosto de 2026, a Agência atualizou ainda a lista nacional de impurezas já qualificadas por meio da IN nº 467/2026, que alterou a IN nº 258/2023.
Segundo a Anvisa, a lista passou a reunir 46 compostos com limites de exposição previamente qualificados.
Também é importante destacar que solventes residuais e impurezas elementares pertencem a categorias específicas, normalmente abordadas pelos guias ICH Q3C e Q3D, respectivamente, e nem sempre são determinadas por CLAE/UPLC.
Validação do método analítico
Para que o resultado de uma análise de impurezas seja confiável, o método utilizado precisa apresentar desempenho compatível com sua finalidade.
Na área farmacêutica brasileira, a RDC nº 166/2017 estabelece critérios para a validação de métodos analíticos aplicados a insumos farmacêuticos, medicamentos e produtos biológicos.
Dependendo da finalidade do procedimento, a validação pode avaliar parâmetros como:
seletividade;
linearidade;
precisão;
exatidão;
limite de detecção;
limite de quantificação;
intervalo;
robustez.
Para impurezas presentes em níveis muito baixos, o limite de quantificação ganha especial importância.
Não basta o equipamento apresentar um pequeno sinal cromatográfico.
É necessário demonstrar que o método consegue medir aquela concentração com precisão e desempenho adequados.
Nos cosméticos, as Boas Práticas de Fabricação também exigem procedimentos de controle de qualidade adequados e documentados.
A RDC nº 48/2013 determina, entre outros pontos, a realização de análises segundo procedimentos escritos e prevê a validação de metodologias analíticas quando aplicável.
Em quais situações essa análise pode ser realizada?
A análise de impurezas por CLAE/UPLC pode ser utilizada em diferentes etapas do desenvolvimento e controle de qualidade.
Entre as principais aplicações estão o controle de matérias-primas, avaliação de insumos farmacêuticos ativos, liberação de produtos acabados, estudos de estabilidade, estudos de degradação forçada, desenvolvimento de formulações e investigação de desvios.
Também pode ser aplicada na comparação entre lotes e no acompanhamento de mudanças que possam influenciar o perfil químico do produto, como alterações de processo, fornecedor ou condições de armazenamento.
Nos cosméticos, a técnica pode ser empregada para pesquisar ou quantificar substâncias específicas quando houver necessidade técnica ou regulatória.
A definição do ensaio adequado deve sempre considerar qual substância se pretende pesquisar, em qual matriz e em qual faixa de concentração.
Importância da análise para o controle de qualidade
O perfil de impurezas fornece informações que vão além da simples concentração do componente principal.
Ele pode ajudar a identificar alterações na matéria-prima, falhas de processo, degradação durante o armazenamento ou formação de compostos indesejáveis.
Em medicamentos, esse acompanhamento está diretamente relacionado ao desenvolvimento, registro, estudos de estabilidade e manutenção da qualidade ao longo da vida útil do produto.
Nos cosméticos, auxilia na avaliação de matérias-primas, formulações e substâncias sujeitas a restrições específicas.
A cromatografia CLAE/UPLC permite trabalhar com misturas complexas e níveis reduzidos de concentração, tornando-se uma ferramenta particularmente útil para esse tipo de investigação.
Conclusão
A análise de impurezas por cromatografia CLAE/UPLC em fármacos e cosméticos é uma importante ferramenta do controle químico de matérias-primas e produtos acabados.
Por meio da separação cromatográfica, é possível avaliar substâncias relacionadas ao componente principal, produtos de degradação e outros compostos relevantes para a qualidade da amostra.
Especialmente no setor farmacêutico, a definição do método, dos limites e dos critérios de aceitação deve considerar a legislação sanitária vigente, os guias internacionais aplicáveis e as características específicas do produto.
Para cosméticos, a avaliação deve ser feita de acordo com a formulação, a substância pesquisada e as restrições regulatórias correspondentes.
Nosso laboratório realiza análises cromatográficas por CLAE/UPLC para diferentes aplicações em fármacos, matérias-primas e produtos cosméticos.
A escolha da metodologia e das condições analíticas pode ser definida de acordo com a matriz, o composto de interesse e o objetivo do ensaio.
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FAQ – Perguntas frequentes
O que significa CLAE?
CLAE significa Cromatografia Líquida de Alta Eficiência. Internacionalmente, a técnica também é conhecida como HPLC.
CLAE e UPLC são a mesma técnica?
Ambas são técnicas de cromatografia líquida. A UPLC trabalha normalmente com partículas menores e pressões mais elevadas, podendo proporcionar análises mais rápidas e separações de alta eficiência.
A análise de impurezas identifica qualquer substância presente na amostra?
Não. O alcance da análise depende do método utilizado, do detector, dos padrões disponíveis e das características químicas dos compostos. Um método desenvolvido para determinadas impurezas não deve ser considerado automaticamente adequado para identificar qualquer contaminante desconhecido.
Qual é o limite permitido de impurezas em medicamentos?
Não existe um único limite aplicável a todas as impurezas e medicamentos. Os critérios variam conforme fatores como dose diária do medicamento, concentração da impureza, natureza química e avaliação toxicológica. Documentos como ICH Q3A, ICH Q3B, ICH M7 e a RDC nº 964/2025 devem ser considerados conforme o caso.
Cosméticos possuem limite máximo geral de impurezas?
Não há um limite único que possa ser utilizado para todas as impurezas em todos os cosméticos. Algumas substâncias possuem limites ou condições específicas de uso, enquanto outras são proibidas. A avaliação deve considerar a legislação aplicável, a matéria-prima, a formulação e a substância investigada.
A CLAE/UPLC pode ser usada em estudos de estabilidade?
Sim. Métodos cromatográficos são amplamente utilizados para acompanhar produtos de degradação durante estudos de estabilidade. Para essa finalidade, o método deve possuir capacidade adequada de separar o princípio ativo de seus produtos de degradação e demais interferentes.
O laboratório precisa saber previamente qual impureza deve ser pesquisada?
Preferencialmente, sim. Informações sobre princípio ativo, composição, processo produtivo, possíveis produtos de degradação e especificações esperadas ajudam a selecionar ou desenvolver uma metodologia mais adequada.





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