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Análise de Lycium barbarum: Da Tradição Medicinal à Qualidade Controlada por Ciência

22 de mar. de 2022
7 min de leitura

Introdução


O goji berry, nome popular da espécie Lycium barbarum L. (família Solanaceae), tem uma história de uso que ultrapassa dois mil e quinhentos anos na medicina tradicional chinesa.


Naquele sistema, a fruta seca é utilizada para "nutrir o fígado e os rins" e "beneficiar a essência e a visão".


Nas últimas décadas, porém, o goji berry migrou do balcão da farmácia oriental para as prateleiras de lojas de produtos naturais em todo o mundo, assumindo a identidade de "superalimento".


Essa transição traz consigo uma série de questões que exigem tratamento científico rigoroso. Qual é, de fato, a composição química dessa fruta?


Como se define e se verifica sua qualidade? Quais são os requisitos regulatórios para sua comercialização, especialmente no Brasil?


Este artigo percorre essas questões a partir da perspectiva da química analítica, com o objetivo de oferecer subsídios a pesquisadores, desenvolvedores de produtos e responsáveis pela qualidade que atuam com Lycium barbarum.



Composição química: muito além do "polissacarídeo" e da "betaína"


Para compreender a lógica da análise de *Lycium barbarum*, é preciso primeiro reconhecer a complexidade de sua composição química.


A farmacopeia chinesa estabelece dois marcadores quantitativos para o goji berry: os polissacarídeos e a betaína.


Essa escolha reflete o reconhecimento tradicional da importância dessas substâncias.


Os polissacarídeos de Lycium barbarum (conhecidos pela sigla LBPs, do inglês Lycium barbarum polysaccharides) são considerados um dos componentes mais bioativos da fruta, com estudos que relatam atividades antioxidantes, imunomoduladoras,

neuroprotetoras e antienvelhecimento.


Estruturalmente, os LBPs constituem uma classe de glicoconjugados com massas moleculares que variam entre 24 e 241 kDa, cujas cadeias glicídicas são compostas principalmente por arabinose e galactose, além de uma porção peptídica contendo glicina-O-serina.


A betaína, por sua vez, é um composto quaternário de amônio de baixa massa molecular amplamente distribuído em vegetais.


No goji berry, aparece em concentrações relativamente elevadas, o que justifica sua escolha como marcador quantitativo.


Contudo, a adoção exclusiva de polissacarídeos e betaína como marcadores de qualidade apresenta limitações evidentes.


A estrutura dos LBPs varia significativamente conforme o método de extração e a origem geográfica do material, e essa própria variabilidade dificulta a padronização analítica.


Já a betaína, por estar presente em diversas outras plantas, carece de especificidade suficiente para caracterizar a qualidade única do goji berry.


Por essa razão, a tendência contemporânea é buscar marcadores moleculares com maior poder discriminatório. O goji berry contém, ainda, carotenoides em quantidades expressivas — a zeaxantina é o principal, podendo atingir milhares de microgramas por grama.


Ácidos fenólicos (como o ácido clorogênico e o ácido cafeico), flavonoides (como a rutina e a quercetina) e derivados de espermidina também já foram identificados.


Um estudo publicado em 2026, utilizando UPLC-Q-TOF-MS/MS combinada com redes moleculares de base de características (FBMN), identificou diversos derivados de espermidina em *Lycium barbarum* e estabeleceu um método de quantificação por HPLC, oferecendo uma nova estratégia para a avaliação da qualidade.



Métodos analíticos: da colorimetria à cromatografia acoplada à espectrometria de massas


A análise do goji berry percorreu um caminho que vai dos métodos colorimétricos tradicionais às técnicas modernas de cromatografia acoplada à espectrometria de massas.


A determinação dos polissacarídeos ainda é feita predominantemente pelo método do fenol-ácido sulfúrico, que quantifica o teor total de açúcares e, por inferência, o teor de polissacarídeos.


Essa abordagem, no entanto, carece de especificidade: não distingue os polissacarídeos de outros açúcares hidrossolúveis. Para contornar essa limitação, pesquisadores desenvolveram métodos de UHPLC com derivatização pré-coluna.


Nessa estratégia, os monossacarídeos obtidos após hidrólise são derivatizados com 1-fenil-3-metil-5-pirazolona (PMP) e separados em coluna C18 com detecção ultravioleta, permitindo a quantificação simultânea de nove monossacarídeos.


Em vinte amostras de goji berry analisadas por esse método, o teor de polissacarídeos variou de 3,02 a 13,04 mg/g, com o ácido galacturônico como monossacarídeo predominante. A precisão e a exatidão do método foram devidamente validadas.


A quantificação da betaína costuma empregar cromatografia líquida de ultraeficiência acoplada à espectrometria de massas em tandem (UHPLC-MS/MS).


Um estudo metodológico publicado em 2024 utilizou coluna HILIC, com fase móvel composta por solução aquosa de acetato de amônio 5 mmol/L e acetonitrila em gradiente, e monitoramento de reações múltiplas para a quantificação.


Os limites de detecção e quantificação alcançados foram de 0,12 mg/kg e 0,35 mg/kg, respectivamente, com recuperações de fortificação entre 81,5% e 102,7%.


A separação dos carotenoides apresenta desafios técnicos maiores, pois a zeaxantina no goji berry ocorre predominantemente na forma esterificada.


Um estudo de 2024 desenvolveu método rápido de UPLC com coluna C30, separando dezessete carotenoides e seus ésteres em vinte e um minutos, com detecção a 450 nm.


As amostras foram extraídas com mistura de hexano, etanol e acetona e submetidas a saponificação com solução metanólica de hidróxido de potássio a 40%, o que converte completamente os ésteres de carotenoides em suas formas monoméricas livres, permitindo a quantificação acurada.


Para os derivados de espermidina, uma frente analítica emergente, os pesquisadores recorreram à UPLC-Q-TOF-MS/MS para triagem qualitativa e à HPLC-UV para quantificação.


Dada a disponibilidade comercial limitada de padrões de espermidina, o método adota a estratégia de quantificar com um padrão e semiquantificar os demais quinze derivados, equilibrando viabilidade prática e riqueza de informações.



Marco regulatório: as exigências específicas do mercado brasileiro


Para empresas que atuam com produtos à base de goji berry no Brasil, compreender as exigências regulatórias locais é condição indispensável.


A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), na Nota Técnica nº 66 de 2015, estabeleceu que, por não haver histórico de consumo de Lycium barbarum como alimento no Brasil, a espécie é classificada como Novo Alimento ou novo ingrediente.


Essa classificação tem consequências práticas importantes:


A fruta em si (fresca ou seca) pode ser comercializada desde que atendidos os requisitos pertinentes à importação ou ao cultivo.


No entanto, extratos ou ingredientes derivados do goji berry devem passar pelo processo de avaliação de novos alimentos da ANVISA (expediente nº 404), com apresentação de comprovação de segurança para uso em alimentos.


Um erro de conformidade frequente é classificar produtos de goji berry como "suplementos de vitaminas e/ou minerais".


A ANVISA rejeita expressamente essa classificação, sob o argumento de que não é possível comprovar que o goji berry seja fonte natural de vitaminas ou minerais.


Além disso, alegar propriedades funcionais ou de saúde em rótulos ou materiais de divulgação exige aprovação prévia específica da ANVISA (expediente nº 403).


A Agência também destaca a existência de evidências de interação entre componentes do goji berry e medicamentos anti-hipertensivos e anticoagulantes, recomendando que pessoas em uso desses medicamentos ou com condições de saúde preexistentes consultem um profissional de saúde antes do consumo.


Essa advertência tem implicações diretas para a comunicação dirigida ao consumidor.


Vale registrar que a ANVISA já adotou medidas fiscalizatórias contra produtos de goji berry com alegações irregulares.


Em 2021, a Resolução nº 4.233 proibiu a comercialização do suplemento "SB com Gojiberry", por conter ingrediente sem avaliação de segurança.


Ações anteriores haviam atingido produtos que alegavam "prevenir depressão", "prevenir câncer" ou "proteger o coração". Uma decisão judicial de 2021 confirmou, ainda, que a venda de goji berry em cápsulas sem o registro como "novo alimento" configura infração sanitária.



Por que a análise profissional é insubstituível


Do exposto, extrai-se uma conclusão clara: a avaliação da qualidade do goji berry está muito além do que "observar a cor e sentir o aroma" pode oferecer.


A complexidade química da espécie implica que apenas parâmetros físicos ou químicos simples não são capazes de retratar sua qualidade de forma abrangente.


A distribuição de massas moleculares dos polissacarídeos, a proporção de monossacarídeos constituintes, o estado de esterificação e a proporção de isômeros dos carotenoides, bem como o teor de marcadores de baixa massa molecular como as espermidinas, exigem técnicas analíticas especializadas para serem determinados com exatidão.


E são justamente esses parâmetros que se relacionam de perto com a bioatividade do goji berry.


Tomemos os polissacarídeos como exemplo. Estudos demonstram que sua atividade antienvelhecimento correlaciona-se significativamente com a massa molecular, o teor de ácidos urônicos e a composição de monossacarídeos.


Diferentes métodos de secagem alteram a massa molecular e a conformação dos polissacarídeos, o que pode impactar suas propriedades funcionais. Isso significa que reportar apenas o "teor de polissacarídeos" é insuficiente — o que se necessita é da caracterização estrutural desses polissacarídeos.


No plano da conformidade regulatória, a ANVISA exige a apresentação de evidências científicas para o registro de novos alimentos e para a aprovação de alegações funcionais.


Empresas que pretendem lançar extratos de goji berry ou propor alegações funcionais no mercado brasileiro precisam reunir dados analíticos robustos que sustentem a segurança e a eficácia do produto.


Sem dados analíticos confiáveis, o pedido de registro dificilmente superará a avaliação técnica.



Conclusão


A ciência analítica aplicada ao *Lycium barbarum* vive um momento de transição: dos marcadores tradicionais para uma avaliação de qualidade multidimensional.


Polissacarídeos e betaína permanecem como indicadores de base, mas a análise de espermidinas, do perfil de carotenoides e de compostos fenólicos vem se consolidando como ferramenta de caracterização mais completa.


No mercado brasileiro, o marco regulatório de novos alimentos da ANVISA estabelece barreiras claras para extratos e alegações funcionais, e os dados analíticos profissionais são a chave para transpô-las.


Para empresas que desenvolvem, importam ou comercializam produtos à base de goji berry, investir em análises confiáveis não é despesa: é condição de acesso ao mercado.



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Perguntas Frequentes (FAQ)


Qual é a classificação regulatória do goji berry no Brasil?

A espécie *Lycium barbarum* é classificada pela ANVISA como Novo Alimento, uma vez que não há histórico de consumo no país.


A fruta seca ou fresca pode ser comercializada atendidos os requisitos de importação ou cultivo, mas extratos e ingredientes derivados precisam passar por avaliação de segurança de novos alimentos.


É permitido alegar que o goji berry "fortalece a imunidade" ou "é antioxidante" no rótulo?

Não, a menos que haja aprovação prévia da ANVISA para a alegação funcional. Alegações desse tipo sem autorização configuram infração sanitária, e a Agência já adotou medidas fiscalizatórias contra diversos produtos.


O teor de "polissacarídeos" determinado por colorimetria é suficiente para atestar a qualidade?

O método do fenol-ácido sulfúrico, embora útil, tem especificidade limitada. Uma avaliação mais confiável requer a combinação com análises de composição de monossacarídeos e distribuição de massas moleculares. Métodos de UHPLC com derivatização pré-coluna permitem quantificar múltiplos monossacarídeos simultaneamente, oferecendo informações mais ricas.


Quais são os principais componentes bioativos do goji berry?

Os polissacarídeos (LBPs) são os mais estudados, seguidos pelos carotenoides (especialmente a zeaxantina), ácidos fenólicos, flavonoides e betaína. Nos últimos anos, os derivados de espermidina passaram a despertar interesse crescente como nova frente de pesquisa.


O goji berry apresenta interações medicamentosas conhecidas?

Sim. A ANVISA registra evidências de interação entre componentes do goji berry e medicamentos anti-hipertensivos e anticoagulantes. Pessoas em uso desses medicamentos devem consultar um profissional de saúde antes de consumir o produto.





 
 
 

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