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Análise de microcistinas: importância para o controle da qualidade da água

6 de set. de 2021
8 min de leitura

Introdução


A qualidade da água destinada ao consumo humano depende do acompanhamento de diversos parâmetros microbiológicos, físicos e químicos.


Entre os contaminantes que merecem atenção especial estão as microcistinas, toxinas produzidas por determinadas espécies de cianobactérias que podem se desenvolver principalmente em ambientes aquáticos ricos em nutrientes.


A análise de microcistinas é uma importante ferramenta para avaliar a segurança da água e auxiliar sistemas de abastecimento, empresas e responsáveis pelo controle da qualidade a identificar situações que possam representar risco à saúde.


Essas substâncias merecem atenção porque podem permanecer presentes na água mesmo quando uma floração de cianobactérias começa a desaparecer.


Por esse motivo, a avaliação visual do manancial não é suficiente para determinar sua segurança: é necessário recorrer a métodos analíticos adequados.



O que são microcistinas?


As microcistinas são um grupo de toxinas produzidas por algumas espécies de cianobactérias, organismos microscópicos encontrados naturalmente em ambientes aquáticos.


Existem mais de 200 variantes conhecidas de microcistinas. Entre elas, a microcistina-LR (MC-LR) é uma das mais estudadas e utilizadas como referência em avaliações toxicológicas e no estabelecimento de parâmetros relacionados à qualidade da água.


Essas toxinas podem estar presentes dentro das próprias células das cianobactérias, constituindo a chamada fração intracelular, ou dissolvidas na água depois de serem liberadas pelas células.


A presença de cianobactérias não significa necessariamente que haverá concentração elevada de microcistinas, pois nem todas as espécies ou cepas são produtoras de toxinas.


Da mesma forma, identificar determinado gênero de cianobactéria não permite determinar com precisão a quantidade de toxina existente.


Por isso, a análise laboratorial de microcistinas é necessária quando se deseja quantificar diretamente essas substâncias.



Por que as microcistinas podem aparecer na água?


As cianobactérias fazem parte naturalmente dos ecossistemas aquáticos. Entretanto, determinadas condições ambientais podem favorecer sua multiplicação intensa, resultando nas chamadas florações de cianobactérias.


Esse fenômeno tende a ser favorecido pela combinação de fatores como disponibilidade elevada de nutrientes, especialmente fósforo e nitrogênio, temperaturas favoráveis, luminosidade, estabilidade da coluna d'água e determinadas condições hidrológicas.


Lagos, represas, reservatórios e outros corpos hídricos superficiais podem ser particularmente suscetíveis.


Quando ocorre uma floração formada por organismos capazes de produzir toxinas, existe a possibilidade de liberação de microcistinas para o ambiente aquático.


A Organização Mundial da Saúde destaca a água proveniente de fontes superficiais com florações de cianobactérias como uma importante via potencial de exposição humana às microcistinas.


Além da água destinada ao abastecimento, o contato com ambientes recreacionais afetados por florações também pode constituir uma forma de exposição.



Quais são os riscos associados às microcistinas?


As microcistinas são classificadas principalmente como hepatotoxinas, ou seja, apresentam o fígado como um de seus principais órgãos-alvo.


Dependendo da concentração, da duração e da forma de exposição, os efeitos podem variar.


Informações toxicológicas disponíveis também apontam possíveis efeitos sobre outros órgãos e sistemas, incluindo os rins.


Em exposições agudas associadas a águas contendo cianobactérias e suas toxinas, podem ocorrer manifestações como náuseas, vômitos, dor abdominal, diarreia e outros sintomas.


Entretanto, a ocorrência e a gravidade dos efeitos dependem de fatores como concentração, tempo de exposição e características individuais.


A preocupação com essas substâncias explica por que o monitoramento de cianobactérias e cianotoxinas integra programas de controle da qualidade da água.



O que é a análise de microcistinas?


A análise de microcistinas tem como objetivo detectar e/ou quantificar essas toxinas em uma determinada amostra, principalmente em matrizes aquosas.


O procedimento laboratorial envolve etapas controladas de preparação da amostra, extração ou tratamento adequado, quando aplicável, determinação analítica e interpretação dos resultados.


Dependendo do método adotado e do objetivo do ensaio, podem ser empregados diferentes princípios analíticos para determinar microcistinas.


Uma questão especialmente importante é diferenciar a toxina presente dentro das células daquela que já está dissolvida na água.


A avaliação de microcistinas totais pode considerar ambas as frações, fornecendo uma visão mais abrangente da presença dessas substâncias na amostra.


Essa característica é relevante porque a ruptura das células de cianobactérias pode liberar toxinas intracelulares para a água.



Qual é o limite de microcistinas na água potável?


No Brasil, a qualidade da água destinada ao consumo humano é regulamentada pelo Anexo XX da Portaria de Consolidação GM/MS nº 5/2017, alterado pela Portaria GM/MS nº 888, de 4 de maio de 2021.


Para microcistina, a legislação estabelece Valor Máximo Permitido (VMP) de 1,0 µg/L, expresso como equivalente de MCYST-LR.


A própria regulamentação esclarece que esse valor corresponde ao somatório das concentrações das diferentes variantes de microcistinas.


Esse valor também está alinhado ao valor-guia provisório para exposição ao longo da vida estabelecido pela Organização Mundial da Saúde para microcistinas totais, de 1 µg/L.


A interpretação de um resultado laboratorial deve sempre considerar a matriz analisada, a finalidade da água, o método empregado, o limite de quantificação do ensaio e a legislação aplicável ao caso.



Quando a legislação exige o monitoramento de microcistinas?


A regulamentação brasileira estabelece critérios específicos para o acompanhamento de cianobactérias e cianotoxinas em mananciais superficiais utilizados para abastecimento.


Segundo a Portaria GM/MS nº 888/2021, quando a contagem de células de cianobactérias no ponto de captação ultrapassa 20.000 células/mL, deve ser realizada análise de microcistinas, saxitoxinas e cilindrospermopsinas, com frequência mínima semanal no ponto de captação.


Esse monitoramento deve permanecer enquanto a contagem de cianobactérias continuar acima do valor estabelecido.


A norma ainda prevê a possibilidade de monitoramento semanal das cianotoxinas diretamente na água bruta como alternativa ao acompanhamento de determinados outros indicadores.


Quando a concentração encontrada na água bruta ou no ponto de captação ultrapassa o respectivo VMP, torna-se obrigatória também a análise das cianotoxinas na saída do tratamento, com frequência semanal.


Esses critérios demonstram que a avaliação de microcistinas deve integrar uma estratégia mais ampla de gerenciamento do risco associado às florações de cianobactérias.



A água transparente pode apresentar microcistinas?


Sim. A ausência de coloração esverdeada, espuma, material acumulado na superfície ou outras alterações visuais não comprova a ausência de microcistinas.


As toxinas podem existir na forma dissolvida, especialmente depois da ruptura ou morte das células produtoras.


Consequentemente, mesmo quando a quantidade de cianobactérias visíveis diminui, parte da toxina pode permanecer na água.


Por esse motivo, apenas uma avaliação laboratorial adequada permite determinar sua concentração de maneira confiável.



O tratamento convencional da água remove microcistinas?


O tratamento da água pode reduzir significativamente a presença de cianobactérias e cianotoxinas, porém a eficiência depende das características da água, da toxina e das etapas utilizadas.


Processos de coagulação, sedimentação e filtração podem contribuir para a remoção de células intactas de cianobactérias. Já as microcistinas dissolvidas podem exigir estratégias adicionais.


A OMS informa que processos de oxidação com agentes como cloro ou ozônio, quando aplicados nas condições adequadas de concentração e tempo de contato, assim como determinados tratamentos com carvão ativado, podem ser efetivos para microcistinas dissolvidas.


Entretanto, o controle deve ser cuidadosamente planejado, porque a ruptura inadequada das células durante determinadas etapas pode liberar toxinas que estavam no interior dos organismos.


Por isso, prevenção, monitoramento do manancial, tratamento adequado e análise laboratorial devem funcionar de maneira integrada.



Qual é a importância da análise de microcistinas?


A análise de microcistinas permite obter informações objetivas sobre uma ameaça que nem sempre pode ser identificada visualmente.


Entre suas principais aplicações estão:

  • avaliação da qualidade da água bruta;

  • monitoramento de mananciais superficiais;

  • acompanhamento de reservatórios;

  • controle da eficiência dos processos de tratamento;

  • avaliação da água destinada ao consumo humano;

  • investigação de episódios de floração de cianobactérias;

  • atendimento a requisitos de monitoramento previstos na legislação;

  • suporte a ações preventivas e corretivas relacionadas à qualidade da água.


A EPA destaca que florações intensas podem representar um desafio para sistemas de tratamento e recomenda estratégias de prevenção, detecção, tratamento e monitoramento para gerenciamento das cianotoxinas.



Análise de microcistinas em laboratório especializado


A confiabilidade de uma análise de microcistinas depende de diferentes etapas, desde a coleta e conservação da amostra até a execução do método analítico e a avaliação dos resultados.


Por se tratar de uma análise envolvendo concentrações muito baixas — frequentemente expressas em microgramas por litro — é importante trabalhar com procedimentos devidamente controlados e métodos adequados à finalidade do ensaio.


Um laboratório especializado pode orientar sobre condições de coleta, tipo de recipiente, conservação, quantidade de amostra necessária, prazo de envio e demais requisitos técnicos.


Além de fornecer o resultado analítico, o ensaio contribui para programas de controle da qualidade da água, acompanhamento de mananciais e atendimento aos requisitos aplicáveis.


Para organizações responsáveis por sistemas de abastecimento, indústrias, condomínios, empreendimentos, órgãos públicos e demais atividades que dependem do monitoramento da água, a análise laboratorial constitui uma ferramenta importante para decisões baseadas em evidências.



Conclusão


As microcistinas são cianotoxinas associadas a determinadas espécies de cianobactérias e podem representar um risco relevante quando presentes em concentrações inadequadas na água.


Como essas substâncias podem ocorrer tanto dentro das células quanto dissolvidas no meio aquático, sua presença não pode ser descartada apenas por características visuais da água.


A análise de microcistinas permite verificar sua ocorrência e concentração, oferecendo informações importantes para controle de qualidade, avaliação de processos de tratamento e atendimento às exigências relacionadas à água destinada ao consumo humano.


No Brasil, a legislação estabelece valor máximo permitido de 1,0 µg/L para microcistina na água para consumo humano, reforçando a importância do monitoramento especialmente em sistemas abastecidos por mananciais superficiais sujeitos ao desenvolvimento de cianobactérias.


A contratação de um laboratório capacitado para realizar a análise contribui para a obtenção de resultados confiáveis e para uma gestão mais segura e preventiva da qualidade da água.



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Perguntas frequentes sobre análise de microcistinas


O que são microcistinas?

Microcistinas são toxinas produzidas por determinadas cianobactérias presentes principalmente em ambientes aquáticos. São classificadas principalmente como hepatotoxinas devido ao seu potencial de afetar o fígado.


Qual é o limite de microcistina na água potável?

De acordo com a Portaria GM/MS nº 888/2021, o Valor Máximo Permitido para microcistina na água destinada ao consumo humano é de 1,0 µg/L, em equivalente de MCYST-LR, considerando o somatório das variantes de microcistinas.


Microcistinas são a mesma coisa que cianobactérias?

Não. Cianobactérias são organismos microscópicos. Microcistinas são toxinas que podem ser produzidas por determinadas espécies ou cepas desses organismos.


Toda cianobactéria produz microcistina?

Não. Nem todas as espécies de cianobactérias são produtoras de microcistinas e, mesmo dentro de uma mesma espécie, podem existir cepas produtoras e não produtoras.


Água limpa e transparente pode apresentar microcistinas?

Sim. Microcistinas dissolvidas podem permanecer na água mesmo sem alterações visuais perceptíveis. Por isso, a aparência da água não substitui a análise laboratorial.


Para que serve a análise de microcistinas?

A análise permite detectar e quantificar essas toxinas, sendo utilizada no controle da qualidade da água, monitoramento de mananciais, acompanhamento de processos de tratamento e atendimento a requisitos regulatórios.


Quando deve ser feita a análise de microcistinas?

A necessidade depende do tipo e uso da água e da legislação aplicável. Em sistemas de abastecimento que utilizam mananciais superficiais, a Portaria GM/MS nº 888/2021 estabelece critérios específicos de monitoramento relacionados à presença e à quantidade de cianobactérias.


A fervura doméstica garante a eliminação das microcistinas?

A fervura não deve ser considerada uma estratégia doméstica segura para solucionar uma contaminação por cianotoxinas. Em situações de suspeita ou confirmação de contaminação, devem ser seguidas as orientações das autoridades sanitárias e do responsável pelo sistema de abastecimento.





 
 
 

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