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Análise de migração global e específica em embalagens plásticas: entenda a importância para a segurança dos alimentos

8 de fev. de 2021
9 min de leitura

Introdução


As embalagens plásticas fazem parte da rotina de praticamente todos os segmentos da indústria de alimentos e bebidas.


Garrafas, potes, filmes, tampas, bandejas e diversos outros materiais são utilizados para proteger os produtos contra contaminações, facilitar o transporte e contribuir para a manutenção de suas características durante a vida útil.


Entretanto, quando um material plástico entra em contato com um alimento, pode ocorrer a transferência de determinadas substâncias presentes na embalagem para o produto acondicionado.


Esse fenômeno é denominado migração e constitui um dos principais aspectos avaliados na segurança dos materiais destinados ao contato com alimentos.


Nesse contexto, a análise de migração global e específica em embalagens plásticas permite avaliar se o material atende aos requisitos estabelecidos pela legislação e se sua composição é adequada às condições previstas de utilização.


No Brasil, a RDC nº 51/2010 da Anvisa estabelece critérios gerais para a determinação das migrações total e específicas em materiais, embalagens e equipamentos plásticos destinados a entrar em contato com alimentos.


A resolução incorporou ao ordenamento brasileiro o regulamento técnico do Mercosul sobre o tema.



O que é migração em embalagens plásticas?


Migração é o processo pelo qual componentes presentes em uma embalagem ou material de contato podem ser transferidos para o alimento.


Os materiais plásticos são constituídos principalmente por polímeros, mas sua fabricação pode envolver monômeros, aditivos, pigmentos, estabilizantes, plastificantes e outras substâncias necessárias para conferir propriedades específicas ao produto final.


Dependendo da composição do plástico e das condições de utilização da embalagem, pequenas quantidades de determinados componentes podem migrar para o alimento.


A ocorrência e a intensidade dessa transferência podem ser influenciadas por diferentes fatores, entre eles:

  • composição e tipo de polímero;

  • natureza do alimento acondicionado;

  • concentração de gordura, água ou ácidos no alimento;

  • temperatura de contato;

  • duração do armazenamento;

  • relação entre a área da embalagem e a quantidade de alimento;

  • utilização da embalagem para aquecimento;

  • condições de fabricação e processamento do material.


Por esse motivo, os ensaios de migração devem procurar representar as condições normais ou previsíveis de utilização da embalagem.


A RDC nº 51/2010 estabelece que os ensaios devem considerar condições de tempo e temperatura correspondentes às etapas de elaboração, armazenamento e consumo do alimento, incluindo situações como enchimento a quente, pasteurização, esterilização, armazenamento prolongado e aquecimento do alimento dentro da própria embalagem.



Qual é a diferença entre migração global e migração específica?


Embora estejam relacionadas ao mesmo fenômeno, a migração global e a migração específica possuem objetivos analíticos diferentes.



Migração global ou migração total


A migração global, denominada oficialmente migração total na regulamentação brasileira, avalia a quantidade total de componentes não voláteis transferidos do material plástico para o alimento ou para um simulante alimentar nas condições do ensaio.


Nesse caso, o objetivo não é identificar individualmente cada substância que migrou, mas verificar a quantidade total de material transferido.


Por isso, a análise de migração global funciona como uma avaliação ampla da interação entre a embalagem e o produto que ficará em contato com ela.


Uma embalagem que apresente migração total acima do limite estabelecido pode indicar que o material está cedendo componentes em quantidade incompatível com os requisitos previstos para sua utilização.



Migração específica


Já a migração específica possui uma abordagem direcionada.Nesse ensaio, é determinada a quantidade de uma substância ou de um grupo específico de substâncias que migrou da embalagem para o alimento ou simulante.


Os limites aplicáveis dependem da substância analisada e da legislação correspondente.

A RDC nº 56/2012, por exemplo, apresenta uma lista positiva de monômeros, substâncias iniciadoras e polímeros autorizados para a elaboração de embalagens e equipamentos plásticos destinados ao contato com alimentos, incluindo restrições de uso, limites de composição e, quando aplicáveis, limites de migração específica.


Portanto, enquanto a migração global responde à pergunta “quanto material total foi transferido?”, a migração específica procura responder “quanto desta determinada substância foi transferido?”.


As duas avaliações são complementares.



Como é realizada a análise de migração em embalagens plásticas?


Nem sempre é viável realizar os ensaios diretamente utilizando o alimento comercializado. Por esse motivo, podem ser empregados simulantes, substâncias escolhidas para representar determinadas características dos alimentos.


As condições utilizadas no ensaio devem ser definidas de acordo com a aplicação prevista para a embalagem.


Por exemplo, uma embalagem destinada a armazenar um produto durante meses à temperatura ambiente apresenta uma condição de uso diferente de uma embalagem destinada a entrar em contato com alimento quente ou passar por processos de esterilização.


Da mesma forma, embalagens utilizadas para produtos aquosos, ácidos, alcoólicos ou gordurosos podem exigir diferentes condições ou simulantes.


A legislação brasileira determina que o contato entre material plástico e simulante seja realizado em condições de tempo e temperatura capazes de reproduzir as situações normais ou previsíveis de fabricação, armazenamento, distribuição, comercialização e consumo.


Após o período de contato, o simulante é submetido ao procedimento analítico correspondente.


No caso da migração total, determina-se a quantidade global de componentes transferidos.


Já nos ensaios de migração específica, técnicas instrumentais adequadas podem ser empregadas para determinar individualmente determinadas substâncias.


A metodologia utilizada depende do composto de interesse, da matriz, do tipo de embalagem e dos requisitos regulamentares aplicáveis.



Por que utilizar simulantes de alimentos?


Os simulantes permitem reproduzir de maneira padronizada a interação entre uma embalagem e diferentes categorias de alimentos.


Esse princípio também é empregado internacionalmente. Na União Europeia, por exemplo, o Regulamento (UE) nº 10/2011 estabelece regras específicas para materiais plásticos destinados ao contato com alimentos e prevê ensaios de migração utilizando alimentos ou simulantes adequados às características do produto acondicionado.


Um alimento ácido, por exemplo, pode apresentar comportamento diferente de um alimento com grande quantidade de gordura em relação à extração de determinadas substâncias presentes no plástico.


Assim, a escolha adequada do simulante e das condições experimentais é fundamental para que o ensaio seja representativo da utilização real da embalagem.



Quais embalagens podem precisar de ensaios de migração?


A avaliação pode ser aplicável a uma ampla variedade de materiais destinados ao contato com alimentos, como:

  • garrafas plásticas;

  • potes e recipientes;

  • filmes flexíveis;

  • bandejas;

  • tampas e componentes de fechamento;

  • embalagens multicamadas;

  • utensílios plásticos;

  • recipientes utilizados para aquecimento;

  • componentes plásticos presentes em equipamentos de processamento;

  • revestimentos poliméricos destinados ao contato direto com alimentos.


A RDC nº 51/2010 abrange materiais constituídos exclusivamente de plástico e determinados materiais multicamadas, inclusive estruturas nas quais a camada em contato com o alimento seja plástica ou constituída por revestimento polimérico.


Por isso, a avaliação deve considerar não somente a matéria-prima, mas principalmente o material final e sua condição de uso.


O que são limites de migração específica?


Nem todas as substâncias possuem os mesmos limites.Os limites de migração específica são estabelecidos para controlar a transferência de determinados componentes do material para o alimento.


A avaliação desses limites considera aspectos relacionados à segurança das substâncias e às condições de utilização.


A regulamentação brasileira contém listas positivas e restrições aplicáveis aos componentes utilizados na fabricação dos materiais plásticos.


A RDC nº 56/2012, por exemplo, regulamenta monômeros, substâncias iniciadoras e polímeros autorizados para embalagens e equipamentos plásticos em contato com alimentos.


Outras regulamentações podem estabelecer requisitos relacionados a aditivos, corantes, metais e elementos presentes em materiais específicos.


A RDC nº 52/2010, por exemplo, estabelece requisitos relacionados aos corantes utilizados em embalagens plásticas e contempla requisitos de migração específica para determinados metais e outros elementos.


Consequentemente, não existe uma única análise de migração específica válida para qualquer embalagem.


Os compostos que precisam ser avaliados dependem da formulação do material e dos requisitos regulatórios aplicáveis.



A composição da embalagem influencia os ensaios necessários?


Sim. Conhecer a composição do material é uma etapa importante para definir adequadamente o plano analítico.


Informações como tipo de polímero, pigmentos, aditivos utilizados, estrutura das camadas e finalidade da embalagem podem ajudar a identificar quais requisitos devem ser verificados.


Além disso, é necessário conhecer:

  • Tipo de alimento que entrará em contato com o material: alimentos aquosos, ácidos, alcoólicos ou gordurosos podem exigir diferentes condições de ensaio.

  • Tempo de contato: uma embalagem utilizada durante poucos minutos apresenta um cenário diferente daquela destinada ao armazenamento por vários meses.

  • Temperatura: condições de congelamento, refrigeração, temperatura ambiente, enchimento a quente ou aquecimento devem ser consideradas.

  • Forma de utilização: embalagens descartáveis e materiais reutilizáveis podem apresentar diferentes requisitos de avaliação.


A própria regulamentação prevê atenção especial aos materiais destinados ao uso repetido.


Caso existam evidências de que sucessivos ciclos de utilização e limpeza provoquem degradação e aumento da migração, análises pertinentes devem ser realizadas para assegurar a conformidade.



Por que realizar a análise de migração global e específica?


Os ensaios de migração representam uma importante ferramenta para fabricantes de embalagens, indústrias de alimentos e empresas que utilizam materiais plásticos em seus processos.


Entre suas principais aplicações estão:

  • avaliação da conformidade de embalagens;

  • controle de qualidade de matérias-primas e produtos acabados;

  • qualificação e homologação de fornecedores;

  • desenvolvimento de novas embalagens;

  • investigação de mudanças de formulação;

  • avaliação de materiais utilizados em contato direto com alimentos;

  • suporte à documentação técnica;

  • atendimento a requisitos de clientes e mercados;

  • acompanhamento após alterações em processos produtivos.


A segurança de uma embalagem não depende apenas de sua resistência mecânica ou de sua aparência.


É igualmente necessário considerar sua interação química com o produto acondicionado.


A Comissão Europeia ressalta que substâncias presentes nos materiais de contato podem ser transferidas aos alimentos, afetando sua segurança química e, potencialmente, características como sabor, odor e aparência.



Análise de migração global e específica em laboratório especializado


A correta avaliação de uma embalagem exige conhecimento das características do material, da aplicação pretendida e das condições reais de contato com o alimento.


Por isso, antes da execução da análise de migração global e específica em embalagens plásticas, é importante realizar uma avaliação técnica para definir os ensaios, simulantes, temperaturas e períodos de contato adequados.


Um laboratório especializado pode auxiliar desde a definição do escopo analítico até a execução dos ensaios e interpretação dos resultados, oferecendo informações importantes para fabricantes de embalagens, indústrias alimentícias, importadores, fornecedores de matérias-primas e demais empresas da cadeia produtiva.


A realização dos ensaios com metodologia adequada fornece maior segurança técnica para decisões relacionadas à utilização da embalagem e ao atendimento dos requisitos aplicáveis.



Conclusão


A análise de migração global e específica em embalagens plásticas é fundamental para avaliar a interação entre materiais plásticos e os alimentos com os quais entrarão em contato.


Enquanto a migração global — ou migração total — determina a quantidade total de componentes transferidos pelo material, a migração específica avalia substâncias determinadas individualmente.


Tempo de contato, temperatura, composição da embalagem, tipo de alimento e finalidade de utilização são fatores essenciais para definir corretamente as condições do ensaio.


Para empresas que fabricam, utilizam ou comercializam embalagens destinadas ao contato com alimentos, contar com uma avaliação laboratorial especializada contribui para o controle de qualidade, desenvolvimento de produtos e atendimento aos requisitos regulatórios.


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FAQ — Perguntas frequentes sobre análise de migração em embalagens plásticas


O que é análise de migração global em embalagens plásticas?

É um ensaio destinado a avaliar a quantidade total de componentes transferidos de um material plástico para um alimento ou simulante nas condições determinadas para o teste. Na regulamentação brasileira, é empregado principalmente o termo migração total.


Qual é a diferença entre migração global e específica?

A migração global avalia o conjunto de substâncias transferidas pelo material, enquanto a migração específica determina individualmente uma substância ou grupo de substâncias.


Todo plástico destinado ao contato com alimentos precisa ser avaliado?

Os requisitos dependem da composição do material, da aplicação e da legislação aplicável. Por isso, cada caso deve ser avaliado tecnicamente para determinar quais ensaios e comprovações de conformidade são necessários.


Por que são utilizados simulantes nos ensaios de migração?

Os simulantes reproduzem determinadas características dos alimentos e permitem realizar ensaios de maneira padronizada e controlada.


A temperatura influencia a migração?

Sim. Temperatura e tempo de contato são fatores importantes na transferência de componentes do plástico. Por esse motivo, os ensaios devem considerar as condições previstas de utilização da embalagem.


Embalagens para alimentos quentes precisam de condições diferentes de análise?

Podem precisar. Enchimento a quente, pasteurização, esterilização ou aquecimento do produto dentro da própria embalagem devem ser considerados na definição das condições do ensaio.


Quais informações devem ser fornecidas ao laboratório?

Sempre que disponíveis, é recomendável informar o tipo e composição da embalagem, alimento que entrará em contato com o material, temperatura de utilização, período de contato, número de ciclos de uso e finalidade do produto.


Qual legislação brasileira trata da migração em embalagens plásticas?

Entre as principais referências está a RDC nº 51/2010 da Anvisa, que estabelece critérios gerais para migração total e específica em materiais, embalagens e equipamentos plásticos destinados ao contato com alimentos. Outras normas complementares estabelecem listas positivas e restrições para substâncias específicas.




 
 
 

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