Análise de Ocratoxina A: importância para a segurança e qualidade dos alimentos
- Enfermeira Natalia Balsalobre
- 20 de mai. de 2025
- 8 min de leitura
Introdução
A segurança dos alimentos depende de um conjunto de fatores que vão desde as condições de cultivo e colheita até o armazenamento, processamento e distribuição.
Entre os perigos químicos que podem comprometer a qualidade dos produtos está a Ocratoxina A (OTA), uma micotoxina que pode estar presente em diferentes alimentos e matérias-primas.
A análise de Ocratoxina A é uma ferramenta importante para identificar e quantificar a presença desse contaminante, contribuindo para o controle de qualidade, a conformidade com a legislação sanitária e a segurança dos produtos destinados ao consumo humano.
Mas o que exatamente é a Ocratoxina A? Como ela chega aos alimentos? Quais produtos apresentam maior possibilidade de contaminação? E por que realizar uma análise laboratorial?
Neste artigo, essas questões serão apresentadas de forma clara, destacando também a importância do controle analítico para empresas do setor alimentício.

O que é a Ocratoxina A?
A Ocratoxina A, frequentemente identificada pela sigla OTA, é uma micotoxina produzida naturalmente por determinadas espécies de fungos, principalmente dos gêneros Aspergillus e Penicillium.
As micotoxinas são substâncias produzidas por fungos que podem contaminar alimentos e rações em diferentes etapas da cadeia produtiva.
A presença desses compostos não está necessariamente relacionada à aparência do produto: um alimento pode não apresentar sinais visíveis de deterioração e, ainda assim, conter uma concentração mensurável de micotoxina.
A Ocratoxina A é particularmente relevante do ponto de vista da segurança dos alimentos devido aos seus efeitos toxicológicos.
Avaliações científicas indicam preocupação principalmente em relação aos rins. A Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) também destaca evidências relacionadas à genotoxicidade e à carcinogenicidade renal da OTA.
Por esse motivo, o monitoramento da substância faz parte das estratégias de controle de contaminantes químicos em alimentos.
Como ocorre a contaminação por Ocratoxina A?
A formação da Ocratoxina A está associada ao desenvolvimento de determinados fungos.
Condições ambientais como umidade, temperatura, armazenamento inadequado e disponibilidade de substrato podem favorecer o crescimento fúngico e, consequentemente, a produção de micotoxinas.
A contaminação pode ocorrer antes da colheita, durante a secagem ou posteriormente, principalmente quando as condições de armazenamento não são adequadas.
Por isso, o controle da Ocratoxina A não deve ser considerado apenas uma etapa laboratorial. Ele envolve toda a cadeia de produção, incluindo:
seleção e qualidade das matérias-primas;
condições de cultivo e colheita;
secagem adequada;
controle de umidade;
armazenamento;
transporte;
processamento industrial;
controle de fornecedores;
monitoramento laboratorial.
A ocorrência de micotoxinas é influenciada por fatores ambientais e pelo manejo das matérias-primas.
A EFSA destaca que cereais, frutas secas, castanhas e especiarias estão entre os grupos de alimentos nos quais diferentes micotoxinas podem ser encontradas.
Quais alimentos podem apresentar Ocratoxina A?
A Ocratoxina A pode ser encontrada em diferentes categorias de alimentos. Entre os produtos de interesse estão café, cereais e derivados, frutas secas e desidratadas, especiarias, leguminosas, produtos de cacau e chocolate, vinho e derivados de uva, entre outros.
A legislação brasileira estabelece limites específicos de acordo com a categoria do alimento.
A Instrução Normativa nº 160/2022 da ANVISA, vinculada à RDC nº 722/2022, apresenta os limites máximos tolerados (LMT) para micotoxinas em alimentos.
Alguns exemplos de limites estabelecidos para Ocratoxina A são:
Categoria de alimento | LMT de Ocratoxina A |
Alimentos à base de cereais para lactentes e crianças de primeira infância | 2 µg/kg |
Amêndoa de cacau | 10 µg/kg |
Café torrado e café solúvel | 10 µg/kg |
Cereais e produtos de cereais, incluindo cevada maltada | 10 µg/kg |
Cereais para posterior processamento | 20 µg/kg |
Especiarias especificadas na norma | 30 µg/kg |
Feijões e outras sementes secas de leguminosas | 10 µg/kg |
Frutas secas e desidratadas | 10 µg/kg |
Produtos de cacau e chocolate | 5 µg/kg |
Suco de uva e polpa de uva | 2 µg/kg |
Vinho e seus derivados | 2 µg/L |
Esses valores demonstram por que a interpretação de um resultado analítico deve considerar qual é o alimento analisado e qual categoria regulatória se aplica ao produto. Não existe um único limite de Ocratoxina A válido para todos os alimentos.
Por que realizar a análise de Ocratoxina A?
A análise de Ocratoxina A permite verificar, por meio de ensaio laboratorial, se determinada amostra apresenta a micotoxina e, quando aplicável, determinar sua concentração.
Esse controle pode ser utilizado por fabricantes, distribuidores, importadores, produtores e empresas que trabalham com matérias-primas e alimentos sujeitos ao controle de contaminantes.
Entre as principais finalidades da análise estão:
Controle de matérias-primas
A análise pode ser utilizada para avaliar lotes recebidos de fornecedores e auxiliar na seleção de matérias-primas adequadas para utilização industrial.
Controle de produtos acabados
A avaliação do produto final permite verificar a presença e a concentração da micotoxina, contribuindo para o controle da qualidade e da segurança do alimento.
Atendimento à legislação
Os resultados laboratoriais podem ser utilizados para verificar a conformidade do produto em relação aos limites máximos tolerados estabelecidos pela legislação aplicável.
A ANVISA informa que a RDC nº 722/2022 estabelece princípios gerais relacionados aos limites máximos tolerados de contaminantes e aos métodos de análise para avaliação de conformidade, enquanto a IN nº 160/2022 estabelece os respectivos limites.
Qualificação de fornecedores
Empresas podem incorporar análises de micotoxinas aos seus programas de qualificação e monitoramento de fornecedores, especialmente quando trabalham com matérias-primas com maior potencial de ocorrência desses contaminantes.
Investigação de desvios
Quando um lote apresenta resultado fora do padrão esperado, a análise pode auxiliar na investigação da origem do problema e na tomada de decisões relacionadas ao controle da matéria-prima ou do processo produtivo.
Como é realizada a análise de Ocratoxina A?
A determinação da Ocratoxina A exige procedimentos laboratoriais capazes de identificar o composto em concentrações relativamente baixas.
De maneira geral, o processo analítico envolve etapas como amostragem, preparo e homogeneização da amostra, extração da micotoxina, etapas de purificação quando aplicáveis e determinação instrumental.
A escolha da metodologia depende da matriz analisada, do nível de concentração esperado, do objetivo do ensaio e dos requisitos aplicáveis ao controle de qualidade.
Um ponto fundamental é que a confiabilidade do resultado não depende apenas do equipamento utilizado.
A representatividade da amostra, o preparo adequado, os controles analíticos e a validação ou verificação do método são igualmente importantes.
Isso ocorre porque a distribuição das micotoxinas em uma matéria-prima pode ser heterogênea.
Assim, uma coleta inadequada pode comprometer a representatividade do resultado mesmo quando a etapa instrumental é realizada corretamente.
Por esse motivo, análises de contaminantes devem ser conduzidas por laboratórios com estrutura, procedimentos e controles adequados ao tipo de ensaio.
O resultado da análise deve ser comparado com qual limite?
Essa é uma das principais questões quando se interpreta um laudo de Ocratoxina A.
O resultado não deve ser comparado simplesmente com um valor genérico encontrado em uma tabela ou na internet. É necessário verificar:
qual é o produto analisado;
qual categoria de alimento se aplica;
qual legislação está vigente;
qual é a unidade apresentada no laudo;
qual limite máximo tolerado corresponde àquela categoria;
se existem observações ou condições específicas previstas na legislação.
No Brasil, a RDC nº 722/2022 dispõe sobre os limites máximos tolerados de contaminantes em alimentos, enquanto a IN nº 160/2022 apresenta os limites específicos para diferentes contaminantes, incluindo a Ocratoxina A.
Portanto, a interpretação adequada exige conhecimento técnico e regulatório.
A importância do monitoramento contínuo
A realização de uma análise isolada pode fornecer informações importantes sobre determinado lote, mas programas de monitoramento contínuo oferecem uma visão mais abrangente do comportamento da matéria-prima e do produto ao longo do tempo.
A frequência das análises pode ser definida de acordo com fatores como:
tipo de produto;
origem da matéria-prima;
histórico de resultados;
condições de armazenamento;
fornecedores;
volume de produção;
avaliação de riscos;
requisitos regulatórios e contratuais.
Esse acompanhamento permite identificar tendências e agir preventivamente antes que um problema de maior proporção comprometa a produção.
Além disso, dados analíticos de ocorrência de contaminantes são importantes para avaliações de risco e para o aprimoramento dos sistemas de controle de segurança dos alimentos.
A EFSA, por exemplo, mantém programas de coleta e avaliação de dados sobre contaminantes químicos em alimentos e rações.
Análise de Ocratoxina A em laboratório
A realização de uma análise de Ocratoxina A em laboratório especializado é uma etapa importante para empresas que precisam controlar a qualidade de matérias-primas e produtos alimentícios.
O ensaio pode contribuir para diferentes objetivos, como controle de recebimento, liberação de lotes, qualificação de fornecedores, investigação de desvios e verificação de atendimento aos requisitos regulatórios.
Para obter um resultado confiável, é fundamental que a análise seja planejada considerando a matriz, o objetivo do ensaio e os critérios de interpretação aplicáveis.
Conclusão
A Ocratoxina A é uma micotoxina de relevância para a segurança dos alimentos e pode estar presente em diferentes produtos, especialmente em determinadas matérias-primas de origem vegetal.
Seu controle exige uma abordagem que combine boas práticas de produção e armazenamento, avaliação de fornecedores, controle de matérias-primas e monitoramento laboratorial.
Nesse contexto, a análise de Ocratoxina A representa uma importante ferramenta para identificar e quantificar esse contaminante, fornecendo informações que auxiliam empresas na tomada de decisões e no atendimento aos requisitos de segurança e conformidade.
Mais do que simplesmente detectar uma substância, o ensaio laboratorial permite transformar uma preocupação relacionada à segurança dos alimentos em um dado técnico que pode ser avaliado de maneira objetiva.
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FAQ – Perguntas frequentes sobre Ocratoxina A
1. O que é Ocratoxina A?
A Ocratoxina A é uma micotoxina produzida naturalmente por determinadas espécies de fungos, principalmente dos gêneros Aspergillus e Penicillium. Ela pode contaminar diferentes alimentos e matérias-primas.
2. A Ocratoxina A faz mal à saúde?
A exposição à Ocratoxina A é uma preocupação de saúde pública devido aos seus efeitos toxicológicos. Estudos e avaliações científicas apontam especial preocupação com os rins, além de evidências relacionadas à genotoxicidade e carcinogenicidade.
3. Quais alimentos podem conter Ocratoxina A?
Entre os alimentos e matérias-primas nos quais a Ocratoxina A pode ocorrer estão café, cereais e derivados, frutas secas, especiarias, leguminosas, cacau, produtos de chocolate, suco e polpa de uva e vinho.
4. Existe limite permitido para Ocratoxina A nos alimentos?
Sim. No Brasil, os limites máximos tolerados são estabelecidos de acordo com a categoria do alimento. A IN nº 160/2022 apresenta diferentes LMTs para Ocratoxina A.
5. A análise de Ocratoxina A é obrigatória?
A necessidade de análise depende do produto, da legislação aplicável, do processo produtivo, dos requisitos de controle e das especificações estabelecidas pela empresa ou pelo cliente. Mesmo quando não houver uma exigência específica para cada lote, o monitoramento pode ser uma importante ferramenta de controle de qualidade.
6. Qual laboratório pode realizar a análise de Ocratoxina A?
A análise deve ser realizada por laboratório que disponha de metodologia adequada à matriz, estrutura analítica compatível e controles necessários para garantir a confiabilidade dos resultados.
7. O resultado da análise garante que o alimento é seguro?
O resultado para Ocratoxina A fornece informações sobre esse contaminante específico. A segurança de um alimento depende de diversos outros fatores, incluindo contaminantes químicos e microbiológicos, composição, processamento, armazenamento e atendimento aos demais requisitos sanitários.
8. Por que analisar a matéria-prima antes da fabricação?
O controle da matéria-prima permite identificar possíveis problemas antes que ela seja incorporada ao processo produtivo, reduzindo riscos de perda de lotes e contribuindo para um sistema preventivo de controle de qualidade.





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