Análise de Odor em Concreto: Causas, Mecanismos e Soluções Técnicas
- Enfermeira Natalia Balsalobre
- 10 de abr. de 2024
- 5 min de leitura
Introdução
O odor emanado por estruturas de concreto é um fenômeno frequentemente subestimado, mas que pode indicar processos químicos e biológicos complexos com implicações significativas para a durabilidade das edificações e para a qualidade do ar interior.
Embora o concreto seja tradicionalmente percebido como um material inerte e estável, evidências científicas demonstram que sua composição e as condições ambientais a que está exposto podem desencadear a liberação de compostos voláteis com odor característico .
Este artigo técnico tem como objetivo explorar as principais causas da geração de odor em concreto, abordando desde os mecanismos de liberação de amônia durante o processo de hidratação até a degradação de compostos orgânicos e a ação de microrganismos.
A compreensão desses fenômenos é fundamental para profissionais da construção civil, engenheiros e gestores de instalações que buscam garantir a salubridade e a qualidade de ambientes construídos.

Mecanismos de Geração de Odor em Concreto
Liberação de Amônia (NH₃) por Hidratação
Um dos principais responsáveis pelo odor característico em concretos recém-aplicados é a amônia (NH₃), um gás de odor pungente e irritante.
Pesquisas indicam que a amônia liberada pelo concreto origina-se de compostos nitrogenados presentes no cimento e nos agregados .
O mecanismo de liberação ocorre quando o íon amônio (NH₄⁺), adsorvido nos agregados, reage com os elementos alcalinos produzidos durante a hidratação do cimento, resultando na volatilização da amônia .
Um aspecto crucial desse fenômeno é que a concentração de amônia emitida pode variar significativamente conforme a origem dos agregados utilizados.
Estudos demonstram que a emissão de NH₃ pode ser mais de 4 vezes maior em concretos produzidos com agregados de determinadas procedências, refletindo diferenças no teor de matéria orgânica e, consequentemente, na capacidade de adsorção de íons amônio (CEC - Capacidade de Troca Catiônica) .
A presença de cinzas volantes oriundas de usinas termelétricas, frequentemente adicionadas ao concreto como material pozolânico, também pode contribuir para a emissão de amônia.
Estudos de campo documentaram que, em aplicações com cinzas volantes contendo teores elevados de amônia, as concentrações do gás no ar podem atingir picos de até 20 ppm em ambientes internos, decaindo gradualmente nas horas e dias subsequentes.
Embora níveis mais baixos possam não representar riscos agudos à saúde, a exposição acima de 1 ppm já pode causar irritação em olhos, nariz e garganta, sendo que limites de exposição ocupacional para curtos períodos são estabelecidos em 35 ppm (15 minutos) pela OSHA .
Degradação de Matéria Orgânica e COVs
Outra fonte significativa de odor está relacionada à presença de matéria orgânica nos constituintes do concreto.
A decomposição microbiológica de compostos orgânicos pode gerar ácidos orgânicos voláteis e monoaminas, substâncias com forte potencial odorífero.
Um exemplo notório é a biodegradação da caseína, um aditivo biopolimérico utilizado em alguns concretos autonivelantes no passado.
Estudos mostraram que bactérias do gênero Clostridia, adaptadas a ambientes extremos com pH elevado (até 12), são capazes de degradar a caseína, produzindo ácidos orgânicos como propiônico e butírico, além de monoaminas como trietilamina, que conferem odor desagradável aos ambientes .
Além da biodegradação da própria matriz do concreto, a interação do material com outros componentes da construção, como adesivos e revestimentos, pode gerar odores.
A alta alcalinidade do concreto (pH frequentemente superior a 13) pode provocar a hidrólise alcalina de adesivos à base de acrilato, resultando na formação de Compostos Orgânicos Voláteis (COVs) odoríferos, como o 2-etil-hexanol e o butanol.
Esses compostos são conhecidos por estarem associados a sintomas da Síndrome do Edifício Doente (SBS), com potenciais efeitos à saúde e desconforto aos ocupantes .
Contaminação Ambiental e Fontes Externas
O concreto pode também absorver e, posteriormente, liberar substâncias odoríferas do ambiente.
Moléculas orgânicas de diversas fontes, como ftalatos, particulados de exaustão diesel, surfactantes e fluidos de limpador de para-brisa, podem ser incorporadas ao concreto durante sua fabricação ou absorvidas do ambiente ao longo do tempo, contribuindo para a deterioração da estrutura e para a emissão de odores .
Formação de Sulfeto de Hidrogênio (H₂S)
Em aplicações específicas, como em redes de esgoto e fossas sépticas, a biodeterioração do concreto pode ocorrer pela ação de bactérias redutoras de sulfato (BRS), que produzem sulfeto de hidrogênio (H₂S) - gás de odor característico de "ovo podre".
Este processo, que envolve a oxidação biológica do H₂S a ácido sulfúrico, é extremamente agressivo e pode levar à corrosão e desagregação da estrutura de concreto .
Avaliação Laboratorial de Emissões Odoríferas
A identificação precisa das fontes de odor e a quantificação dos compostos voláteis requerem metodologias analíticas avançadas.
Para a análise de amônia, métodos como o método do Indofenol (com absorção em solução) são comumente empregados.
Para a análise de COVs, a técnica de cromatografia gasosa acoplada à espectrometria de massas (GC/MS), com sistemas de Purge & Trap, é fundamental para a identificação e quantificação de uma ampla gama de compostos orgânicos voláteis .
Além das análises químicas, a avaliação sensorial (testes olfativos) em câmaras de emissão controlada complementa a caracterização do odor, relacionando os compostos detectados com a percepção humana.
Testes laboratoriais podem simular diferentes condições de umidade relativa (ex: 50%, 75% e 95%) para avaliar como o ambiente influencia as emissões de COVs e o potencial de colonização fúngica, que também pode gerar odores (mVOCs) .
Conclusão
A presença de odor em concreto é um indicador de processos físico-químicos e biológicos complexos.
As principais causas envolvem a liberação de amônia durante a hidratação, derivada de compostos nitrogenados nos agregados e aditivos, além da degradação de matéria orgânica e a interação com outros materiais de construção.
Compreender esses mecanismos é essencial para a especificação adequada de materiais, o controle de qualidade na produção e a manutenção da qualidade do ar em ambientes construídos.
A análise técnica detalhada permite não apenas diagnosticar a origem do problema, mas também orientar a seleção de insumos com menor potencial de emissão, como agregados com baixo teor de matéria orgânica e aditivos adequados, mitigando riscos à saúde dos ocupantes e garantindo a durabilidade das estruturas.
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FAQ
1. Por que o concreto novo tem um cheiro tão forte?
O odor é frequentemente causado pela liberação de amônia (NH₃) durante o processo de hidratação do cimento, que reage com compostos nitrogenados presentes nos agregados, ou pela liberação de outros compostos voláteis originários de aditivos ou da degradação de matéria orgânica.
2. O cheiro de amônia no concreto é perigoso?
A exposição a altas concentrações pode ser irritante para olhos, nariz e garganta. Embora os níveis típicos em ambientes ventilados diminuam rapidamente, em espaços confinados ou com ventilação inadequada, a concentração pode atingir patamares que exigem monitoramento e cuidados.
3. O que é a "Síndrome do Edifício Doente" e qual a relação com o concreto?
A Síndrome do Edifício Doente (SBS) descreve um conjunto de sintomas (dores de cabeça, irritações, fadiga) experimentados por ocupantes de um edifício, sem uma causa específica identificada. A liberação de COVs odoríferos pelo concreto e por materiais em contato com ele é um dos fatores que podem contribuir para a má qualidade do ar interior.
4. Como é feita a análise do odor e dos compostos emitidos pelo concreto?
A análise envolve métodos laboratoriais como a cromatografia gasosa acoplada à espectrometria de massas (GC/MS) para identificar e quantificar os COVs, e métodos colorimétricos para a amônia. Testes sensoriais em câmaras de emissão também são utilizados para avaliar a percepção do odor.





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