As Bactérias Lácteas: das Fermentações à Segurança Alimentar
- Enfermeira Natalia Balsalobre
- há 4 dias
- 9 min de leitura
Introdução: O Fascinante Mundo das Bactérias Lácteas
As bactérias lácticas (BAL) representam um dos grupos de microrganismos mais antigos e significativos na história da alimentação humana.
Compostas por um diversificado grupo de bactérias Gram-positivas, não formadoras de esporos, que compartilham uma característica metabólica fundamental: a produção de ácido lático a partir da fermentação de carboidratos.
O que torna essas bactérias verdadeiramente notáveis é sua presença ubíqua na natureza e sua relação simbiótica com nossa espécie.
Encontradas em produtos lácteos fermentados, vegetais, carne e até mesmo no trato gastrointestinal humano, as BAL são responsáveis por transformações alimentares que remontam aos primórdios da civilização.
Sua importância industrial é evidenciada por seu status "Geralmente Reconhecidas como Seguras" (GRAS), concedido pela Food and Drug Administration (FDA), e pela ampla aplicação como culturas iniciadoras em processos fermentativos, além de seu potencial probiótico.
Nas próximas seções, exploraremos as características fundamentais desses microrganismos extraordinários, seus mecanismos metabólicos complexos, seu papel duplo na indústria de alimentos (como agentes de fermentação e como contaminantes), e as metodologias científicas necessárias para garantir sua utilização segura e benéfica.

Características Fundamentais e Classificação Taxonômica
Aspectos Morfológicos e Fisiológicos
As bactérias lácticas apresentam diversidade morfológica notável, podendo se apresentar como cocos (formas esféricas) ou bacilos (formas alongadas).
Esta diversidade morfológica reflete-se em sua classificação taxonômica e em suas diferentes aplicações industriais.
Estas bactérias são caracterizadas por sua maior tolerância à acidez (baixo pH), uma característica que lhes confere vantagem competitiva em ambientes fermentativos, onde conseguem prosperar mesmo com o aumento da acidez resultante de sua própria atividade metabólica.
Um aspecto fisiológico fundamental é sua incapacidade de realizar respiração celular convencional, sendo catalase-negativas e dependentes da fermentação para obtenção de energia.
A maioria das espécies é incapaz de sintetizar compostos orgânicos complexos, exigindo meios de cultura ricos em aminoácidos, peptídeos, vitaminas do complexo B e carboidratos fermentáveis.
Classificação Taxonômica e Principais Gêneros
A classificação das BAL tem evoluído significativamente com o avanço das técnicas moleculares.
A taxonomia atual coloca a maioria dessas bactérias dentro da ordem Lactobacillales, do filo Bacillota.
No entanto, é importante notar que bactérias do gênero Bifidobacterium (filo Actinomycetota) também produzem ácido lático como produto metabólico principal, embora pertençam a um grupo filogeneticamente distinto.
Os gêneros que constituem o núcleo das BAL são:
Lactobacillus: Inclui numerosas espécies com aplicações variadas em fermentações lácteas, vegetais e cárneas.
Leuconostoc: Fundamental na produção de aromas em produtos lácteos e vegetais fermentados.
Pediococcus: Utilizado em fermentações de vegetais e algumas variedades de cerveja.
Lactococcus: Crucial na produção de queijos e leites fermentados.
Streptococcus: Inclui espécies como S. thermophilus, essencial na fabricação de iogurte.
Além desses, existem gêneros considerados mais periféricos: Aerococcus, Carnobacterium, Enterococcus, Oenococcus, Sporolactobacillus, Tetragenococcus, Vagococcus e Weissella.
A reclassificação taxonômica continua à medida que novos dados genômicos emergem, como demonstrado pela reclassificação em 1985 de membros do gênero Streptococcus em Lactococcus, Enterococcus, Vagococcus e Streptococcus.
Metabolismo e Produção de Ácido Lático
Vias Metabólicas Fundamentais
O metabolismo das bactérias lácticas é especializado na conversão de carboidratos em ácido lático, processo que ocorre principalmente através de duas vias fermentativas distintas:
Fermentação Homolática
Sob condições de excesso de glicose e oxigênio limitado, as BAL homoláticas catabolizam um mol de glicose através da via Embden-Meyerhof-Parnas (glicólise), produzindo dois mols de piruvato.
Para manter o equilíbrio redox intracelular, o NADH resultante é oxidado concomitantemente com a redução do piruvato a ácido lático.
Este processo resulta na produção de dois moles de ATP por mol de glicose consumido, sendo o ácido lático o produto final praticamente exclusivo (mais de 90%).
Gêneros representativos desse grupo incluem Lactococcus, Enterococcus, Streptococcus, Pediococcus e lactobacilos do grupo I.
Fermentação Heterolática
As BAL heterofermentativas utilizam uma via metabólica alternativa, a via da pentose fosfato (também conhecida como via da fosfocetolase).
Nesta via, um mol de glicose-6-fosfato é inicialmente desidrogenado a 6-fosfogluconato e subsequentemente descarboxilado, produzindo um mol de CO₂. A pentose-5-fosfato resultante é clivada em um mol de gliceraldeído fosfato (GAP) e um mol de acetil fosfato.
O GAP é então metabolizado em lactato como na homofermentação, enquanto o acetil fosfato é reduzido a etanol.
Em teoria, os produtos finais (incluindo ATP) são produzidos em quantidades equimolares a partir do catabolismo de um mol de glicose.
As BAL heterofermentativas obrigatórias incluem Leuconostoc, Oenococcus, Weissella e lactobacilos do grupo III.
Produtos Metabólicos Secundários e Aplicações
Além do ácido lático, as BAL produzem uma variedade de compostos que possuem grande importância tecnológica e biológica. Entre esses metabólitos secundários destacam-se:
Compostos aromáticos: Diacetil, acetaldeído e outros compostos voláteis responsáveis pelas características sensoriais de alimentos fermentados.
Bacteriocinas: Peptídeos antimicrobianos que inibem o crescimento de bactérias patogênicas ou deteriorantes. Estes compostos representam uma forma natural de biopreservação de alimentos.
Exopolissacarídeos: Polímeros que influenciam positivamente a textura de produtos como iogurtes e queijos.
Biossurfactantes: Compostos proteicos, glicolipídicos e glicoproteicos com diversas aplicações industriais, incluindo propriedades emulsificantes, espessantes e antibiofilme.
Aplicações Industriais das Bactérias Lácticas
Culturas Iniciadoras na Indústria de Alimentos
A utilização de BAL como culturas iniciadoras representa uma das aplicações mais importantes desses microrganismos.
Ao contrário do método tradicional de backslopping (que utiliza uma pequena quantidade do fermentado anterior como inóculo para a próxima fermentação), as culturas iniciadoras definidas permitem padronizar processos e garantir características consistentes do produto final.
Estas culturas são essenciais na produção de:
Produtos lácteos fermentados: Queijo, iogurte, leites fermentados
Produtos cárneos fermentados: Salames, presuntos curados
Vegetais fermentados: Chucrute, picles, azeitonas
Bebidas fermentadas: Cerveja, vinho, kvass
A seleção criteriosa de cepas específicas para cada aplicação permite controlar parâmetros como velocidade de acidificação, produção de aromas, formação de textura e inibição de microrganismos indesejáveis.
Probióticos e Saúde Humana
Algumas linhagens de BAL são utilizadas como probióticos, definidos como "microrganismos vivos que, quando administrados em quantidades adequadas, conferem benefícios à saúde do hospedeiro".
Para que uma linhagem seja considerada probiótica, deve ser capaz de sobreviver ao trato gastrointestinal, aderir às células epiteliais intestinais e exercer efeitos benéficos comprovados cientificamente.
No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) regula o uso de probióticos através da Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) 241/2018, que estabelece os requisitos necessários para autorizar o uso de uma linhagem como probiótico.
As espécies mais comumente utilizadas como probióticos incluem Lactobacillus acidophilus, Lactobacillus casei, L. reuteri, Lactobacillus rhamnosus e L. plantarum.
Os principais benefícios associados ao consumo de probióticos incluem:
Equilíbrio da microbiota intestinal: Competição com patógenos por nutrientes e sítios de adesão
Modulação do sistema imunológico: Estímulo à produção de imunoglobulina A (IgA)
Melhora da digestão: Produção de enzimas digestivas e fermentação de fibras
Síntese de nutrientes: Produção de vitaminas do complexo B
Biopreservação e Controle de Micotoxinas
As BAL representam uma ferramenta valiosa na biopreservação de alimentos, oferecendo uma alternativa "verde" aos conservantes químicos.
Este potencial conservante deriva da produção de diversos compostos antimicrobianos, incluindo ácidos orgânicos, bacteriocinas, peróxido de hidrogênio e diacetil.
Um campo de aplicação promissor é o controle de fungos produtores de micotoxinas. Estudos recentes têm investigado o uso de BAL como estratégia antifúngica contra gêneros como Aspergillus, Penicillium e Fusarium, responsáveis por enormes perdas econômicas na pós-colheita de alimentos.
A aplicação de BAL tem mostrado resultados promissores em diversos produtos:
Laticínios: Nata, queijo, iogurte e leite
Frutas e vegetais: Molho de tomate, melão e uva
Grãos de cereais: Milho, sorgo e trigo
Produtos cárneos: Salsicha fermentada, presunto
NSLAB: Bactérias Lácticas Não Iniciadoras
Um grupo particularmente interessante no contexto de produtos lácteos maturados são as NSLAB (Non-Starter Lactic Acid Bacteria).
Ao contrário das culturas iniciadoras, as NSLAB não são adicionadas intencionalmente, mas contaminam o produto a partir do leite cru ou do ambiente de processamento.
Durante a maturação do queijo, essas bactérias apresentam uma cinética de crescimento oposta à das culturas iniciadoras.
Enquanto as culturas iniciadoras diminuem em população devido às condições adversas (ausência de lactose residual, pH ácido, alta concentração salina), as NSLAB crescem de 10²-10³ UFC/g no queijo fresco para 10⁷-10⁹ UFC/g após vários meses de maturação.
As NSLAB mais comumente encontradas pertencem aos gêneros Lactobacillus (L. casei, L. paracasei, L. plantarum), Pediococcus e Enterococcus. Sua importância reside na capacidade de utilizar fontes alternativas de nutrientes (ácido lático, ácido cítrico, aminoácidos) e de produzir compostos aromáticos que contribuem significativamente para o perfil sensorial de queijos maturados.
Além disso, algumas cepas de NSLAB possuem características probióticas e podem produzir peptídeos bioativos com atividade anti-hipertensiva, representando um potencial funcional ainda pouco explorado.
Análise Microbiológica: Fundamentos e Aplicações
Importância da Análise Microbiológica
A análise microbiológica de bactérias lácticas é um componente crítico no controle de qualidade de produtos alimentícios, garantindo não apenas segurança alimentar, mas também conformidade com regulamentações sanitárias.
No Brasil, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) estabelece limites microbiológicos rigorosos através da Instrução Normativa 76/2018, que define parâmetros para leite cru refrigerado, incluindo contagem padrão em placas (até 300.000 UFC/mL) e contagem de coliformes.
A análise microbiológica permite:
Verificar a higiene durante produção e processamento
Avaliar a eficiência de tratamentos térmicos como pasteurização
Monitorar a atividade de culturas iniciadoras
Detectar contaminações por microrganismos patogênicos ou deteriorantes
Atender requisitos legais e padrões de exportação
Metodologias Analíticas Principais
Métodos Tradicionais Baseados em Cultura
Os métodos microbiológicos tradicionais continuam sendo a base para análise de BAL, envolvendo etapas padronizadas:
Coleta asséptica: Utilizando frascos estéreis e transporte refrigerado para preservar a microbiota original
Preparo de amostra: Diluições seriadas em solução salina peptonada
Semeadura: Técnicas como pour plate, espalhamento em superfície ou filtração por membrana
Incubação: Em condições controladas de temperatura e atmosfera
Contagem e identificação: Leitura de unidades formadoras de colônias (UFC) e testes bioquímicos complementares
Métodos Moleculares Avançados
Avanços tecnológicos têm introduzido metodologias moleculares que complementam ou substituem os métodos tradicionais:
Reação em Cadeia da Polimerase (PCR): Permite detecção e identificação específica de espécies ou cepas
Sequenciamento Genômico: Útil para caracterização detalhada de culturas iniciadoras
Eletroforese em Gel de Campo Pulsado (PFGE): Aplicada em estudos epidemiológicos e rastreamento de contaminações
Metabarcoding de rRNA 16S: Análise da diversidade microbiana em produtos fermentados complexos
Equipamentos Essenciais para Laboratórios de Análise
Um laboratório dedicado à análise de BAL requer equipamentos especializados para garantir resultados precisos e reprodutíveis:
Cabine de segurança biológica: Protege o analista e evita contaminação cruzada durante o manuseio
Autoclave: Esterilização de meios de cultura e materiais
Estufa/Incubadora bacteriológica: Mantém temperaturas controladas para crescimento microbiano
Banho-maria: Derretimento e manutenção de meios de cultura em estado líquido
Contador de colônias: Automatiza a contagem de UFC, reduzindo erros humanos
pHmetro: Monitoramento de acidificação durante processos fermentativos
Microscópio: Observação morfológica e contagem direta
A implementação de Boas Práticas de Laboratório (BPL) é fundamental para garantir a qualidade e confiabilidade dos resultados analíticos.

Conclusão: O Futuro das Bactérias Lácticas na Ciência e Indústria
As bactérias lácticas representam um dos grupos microbianos mais versáteis e significativos tanto para a indústria alimentícia quanto para a saúde humana.
Da produção tradicional de alimentos fermentados às aplicações biotecnológicas mais avançadas, essas bactérias continuam a revelar novos potenciais e aplicações.
O futuro da pesquisa e aplicação das BAL parece promissor, com tendências emergentes incluindo:
Desenvolvimento de culturas iniciadoras personalizadas para produtos específicos
Exploração do potencial terapêutico além da saúde intestinal
Aplicações em biopreservação como alternativa a conservantes químicos
Produção de ingredientes funcionais como peptídeos bioativos e exopolissacarídeos
Uso em bioremediação e processos ambientais
No entanto, a utilização responsável desses microrganismos exige uma compreensão profunda de sua diversidade, metabolismo e interações com outros componentes dos sistemas alimentares e biológicos.
É neste contexto que a análise microbiológica precisa e confiável se torna indispensável, garantindo que os benefícios das bactérias lácticas sejam aproveitados com segurança e eficácia máxima.
A Importância de Escolher o Lab2bio
Com anos de experiência no mercado, o Lab2bio possui um histórico comprovado de sucesso em análises microbiológicas.
Empresas do setor alimentício, indústrias farmacêuticas, laboratórios e outros segmentos confiam no Lab2bio para garantir a segurança e qualidade do seu alimento.
Evitar riscos de contaminação é um compromisso com a saúde de seus clientes e com a longevidade do seu negócio. Investir em análises periódicas é um diferencial que fortalece sua reputação e evita prejuízos futuro.
Para saber mais sobre Análise de Alimentos com o Laboratório LAB2BIO - Análises de Ar, Água, Alimentos, Swab e Efluentes ligue para (11) 91138-3253 (WhatsApp) ou (11) 2443-3786 ou clique aqui e solicite seu orçamento.
Perguntas Frequentes (FAQ)
O que são bactérias lácticas e onde podem ser encontradas?
As bactérias lácticas (BAL) são um grupo diversificado de microrganismos Gram-positivos que produzem ácido lático como principal produto da fermentação de carboidratos. Podem ser encontradas naturalmente em produtos lácteos fermentados, vegetais, carnes, no trato gastrointestinal humano e animal, além de solo e água.
Qual a diferença entre bactérias lácticas homofermentativas e heterofermentativas?
As bactérias homofermentativas convertem açúcares quase exclusivamente em ácido lático através da glicólise, enquanto as heterofermentativas produzem uma mistura de ácido lático, etanol, CO₂ e, por vezes, ácido acético, utilizando a via da fosfocetolase.
Como as bactérias lácticas contribuem para a preservação de alimentos?
As BAL preservam alimentos através da produção de ácido lático (que reduz o pH), compostos antimicrobianos como bacteriocinas, e pela competição com microrganismos deteriorantes e patogênicos. Este processo é conhecido como biopreservação.
Todas as bactérias lácticas são probióticas?
Não. Para ser considerada probiótica, uma cepa bacteriana deve sobreviver ao trato gastrointestinal, aderir ao epitélio intestinal, e apresentar efeitos benéficos à saúde comprovados cientificamente. Apenas algumas cepas específicas de BAL atendem a estes critérios.
Quais os principais parâmetros analisados em um laboratório para avaliar bactérias lácticas em produtos lácteos?
Os principais parâmetros incluem contagem de bactérias mesófilas totais, detecção e contagem de coliformes, pesquisa de patógenos específicos (como Salmonella e Listeria), identificação e quantificação de culturas iniciadoras, e monitoramento de processos fermentativos (pH, acidez).





Comentários