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Legionella sp: por que essa bactéria ambiental vem ganhando espaço nas discussões de saúde pública

23 de set. de 2021
5 min de leitura

O que é a Legionella sp: uma bactéria subestimada nos sistemas de água


A Legionella é um gênero de bactérias gram-negativas amplamente presente em ambientes aquáticos naturais, como rios, lagos e lagoas.


Nesses locais, sua concentração costuma ser baixa e não representa um problema relevante de saúde pública.


A situação muda completamente quando essas bactérias encontram ambientes artificiais — especialmente sistemas de água aquecida, torres de resfriamento e equipamentos de ar-condicionado.


Atualmente, são conhecidas cerca de 48 espécies do gênero Legionella, distribuídas em mais de 70 sorogrupos.


Dentre elas, a Legionella pneumophila é a mais associada a doenças humanas, respondendo por aproximadamente 90% dos casos de legionelose. Dentro dessa espécie, o sorogrupo 1 (SG1) tem a maior relevância clínica.


Um detalhe importante, e muitas vezes ignorado, é que a Legionella não vive isolada na natureza.


Ela é capaz de se hospedar e se multiplicar no interior de protozoários de vida livre, como amebas.


Esse modo de vida intracelular não apenas fornece nutrientes, mas também funciona como uma barreira de proteção: a bactéria se torna mais resistente a desinfetantes e a condições ambientais adversas.


É por isso que apenas manter níveis adequados de cloro residual na água não é suficiente para eliminar o risco de colonização por Legionella.



Da água ao organismo humano: cadeia de transmissão e impactos na saúde


A infecção por Legionella depende de uma condição específica: a inalação de aerossóis contaminados.


Beber água contaminada não causa a doença. O risco real está em respirar gotículas finas ou aerossóis que carregam a bactéria.


Quais ambientes geram esse tipo de aerossol? Torres de resfriamento e condensadores evaporativos são reconhecidamente os equipamentos de maior risco, pois liberam na atmosfera pequenas gotas de água durante o processo de evaporação.


Chuveiros, banheiras de hidromassagem, umidificadores, fontes decorativas e até equipamentos odontológicos também podem produzir aerossóis e se tornar fontes potenciais de exposição.


Nem todo contato resulta em doença. A infecção por Legionella se manifesta clinicamente de duas formas distintas:


- Febre de Pontiac: uma doença autolimitada, semelhante a uma gripe, com febre, dor de cabeça e dores musculares. Costuma regredir espontaneamente em poucos dias, sem necessidade de tratamento específico.

- Doença dos legionários: uma pneumonia grave, cuja taxa de letalidade pode chegar a 15% ou 20%, especialmente quando o diagnóstico e o tratamento não ocorrem em tempo oportuno.


Os grupos de maior risco incluem idosos, fumantes, pessoas com imunidade comprometida e portadores de diabetes ou doenças respiratórias crônicas.


Estudos recentes também apontam que coinfecções por Legionella durante ou após quadros de COVID-19 merecem atenção clínica, já que a semelhança de sintomas pode levar a erros de diagnóstico.


A lógica técnica da detecção: por que o cultivo ainda é o padrão de referência


A análise de Legionella em sistemas de água tem como objetivo responder a uma pergunta prática: o sistema está colonizado? Em que grau?


O método de referência internacionalmente reconhecido é o cultivo conforme a norma ISO 11731:2017.


O processo envolve coleta da amostra, concentração por filtração em membrana, tratamento ácido ou térmico para inibir a microbiota acompanhante, inoculação em meio seletivo (como ágar GVPC) e incubação a 35–37 °C por até 10 dias, seguida da confirmação das colônias.


A principal vantagem do cultivo é detectar apenas bactérias viáveis e cultiváveis, que é o indicador mais direto para avaliação de risco à saúde.


Além disso, o método permite isolar cepas específicas para posterior sorotipagem ou rastreamento molecular.


Por outro lado, o cultivo apresenta limitações claras: o tempo de resposta é longo (normalmente de 7 a 14 dias), exige experiência técnica do analista e pode apresentar variações de recuperação entre diferentes laboratórios.


Nos últimos anos, a qPCR (PCR quantitativo, conforme ISO/TS 12869) ganhou espaço como método complementar.


A qPCR fornece resultados quantitativos em poucas horas e tem alta sensibilidade, mas não distingue bactérias vivas de mortas e pode detectar DNA livre no ambiente. Por isso, não substitui o cultivo como base única para avaliação de risco.


A estratégia de amostragem também é decisiva. De acordo com a norma técnica brasileira ABNT NBR 16824, os pontos e a frequência de coleta devem ser definidos com base na avaliação de risco do sistema, incluindo saída do reservatório de água quente, retorno de circulação, pontos terminais de consumo e bandeja de coleta de torres de resfriamento.



Da conformidade à gestão de risco: o valor real do monitoramento


No Brasil, a legionelose não integra a lista de doenças de notificação compulsória, o que gera uma lacuna significativa nos dados epidemiológicos.


Dados do setor indicam que a taxa de positividade em amostras de sistemas de água submetidos a análise chega a cerca de 15%, sendo sistemas de água de resfriamento e dispositivos como chuveiros e torneiras os cenários com maior frequência de detecção.


Esses números deixam uma mensagem clara: a colonização por Legionella não é um evento raro, mas algo amplamente presente em sistemas de água sem monitoramento e manutenção adequados.


Para gestores de hospitais, hotéis, edificações comerciais e instalações industriais, a análise periódica vai muito além de uma exigência regulatória.


Ela é uma etapa essencial da cadeia de gestão de risco: somente com a identificação dos pontos de colonização é possível aplicar medidas corretivas direcionadas — como choque térmico, tratamento com cloro ou modificações no sistema — e confirmar a eficácia dessas medidas por meio de análises de verificação.


A publicação da ABNT NBR 16824 trouxe para o mercado brasileiro um arcabouço técnico local, inserindo a gestão de risco de Legionella no contexto mais amplo do controle sanitário de sistemas prediais de água e reforçando estratégias preventivas baseadas nos princípios do HACCP.



FAQ


1. Quais tipos de sistemas de água precisam de análise periódica de Legionella?

Os sistemas prioritários incluem: redes de água quente centralizadas, torres de resfriamento e condensadores evaporativos, bandejas de condensado de sistemas de ar-condicionado de grande porte, banheiras de hidromassagem e spas, além de circuitos de água de equipamentos de terapia respiratória em serviços de saúde. A frequência deve ser definida a partir da avaliação de risco de cada sistema.


2. Um resultado “não detectado” significa que o sistema está totalmente seguro?

“Não detectado” significa apenas que, no momento da coleta, no ponto amostrado e dentro do limite de detecção do método utilizado, não foram encontradas bactérias do gênero. Considerando a distribuição irregular da Legionella em biofilmes, um resultado negativo isolado não garante segurança a longo prazo — é necessário avaliá-lo dentro de um programa de monitoramento contínuo.


3. Quanto tempo leva entre a coleta e a emissão do laudo?

Com o método de cultivo conforme ISO 11731, o laudo completo costuma levar cerca de 14 dias, em razão do período de incubação de 7 a 10 dias. Alguns laboratórios oferecem a qPCR como triagem rápida complementar, mas o resultado do cultivo permanece como base para a conclusão final.


4. Se for detectada Legionella, qual deve ser o próximo passo?

O resultado deve ser interpretado em conjunto com a concentração encontrada, o sorogrupo identificado e o tipo de sistema. As medidas normalmente recomendadas incluem: recoleta para confirmação, choque térmico ou desinfecção química do sistema, investigação das causas da colonização (como zonas de água estagnada, falhas no controle de temperatura e acúmulo de biofilme) e análise de verificação após a aplicação das medidas corretivas.


5. Com base em quais normas o serviço de análise é executado?

O ensaio laboratorial deve ter como base metodológica a ISO 11731:2017, e a amostragem e a interpretação dos resultados devem seguir o arcabouço técnico da ABNT NBR 16824. Laudos emitidos por laboratórios acreditados (como os que atendem à ISO/IEC 17025) têm maior credibilidade técnica.



 
 
 

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