Putrescina na Água: O Marcador Silencioso da Contaminação Orgânica e Seus Riscos
- Enfermeira Natalia Balsalobre
- 10 de jun. de 2024
- 11 min de leitura
Introdução: O Que é Putrescina e Por Que Ela Aparece na Água?
Quando se fala em qualidade da água, os parâmetros que vêm à mente do público em geral são, geralmente, a presença de cloro, o aspecto turvo ou o gosto.
No entanto, por trás da análise técnica, existe um universo de compostos químicos que atuam como verdadeiros "detetives" ambientais, indicando problemas que os olhos não podem ver.
Entre esses compostos, a putrescina ocupa uma posição de destaque, especialmente quando o assunto é a contaminação por matéria orgânica em decomposição.
A putrescina, cujo nome científico é 1,4-diaminobutano (ou tetrametilenodiamina), é uma diamina biogênica de baixo peso molecular.
Em termos mais simples, é uma substância química naturalmente produzida durante a putrefação de proteínas.
Ela é gerada especificamente a partir da descarboxilação do aminoácido ornitina, um processo realizado por enzimas de microrganismos durante a decomposição de tecidos animais e vegetais .
É precisamente essa origem que faz dela um composto tão informativo. Quando encontrada em amostras de água, seja de poços artesianos, nascentes ou lençóis freáticos, a putrescina não surge por acaso.
Sua presença é um indicador químico inequívoco de que há matéria orgânica em decomposição em contato com o aquífero.
Diferente de bactérias como os coliformes fecais, que podem ter sua origem difusa e, por vezes, de difícil rastreio imediato, a putrescina age como um marcador direto de um processo específico: a decomposição de proteínas.
O ciclo da água, em sua essência, é um filtro natural. O solo atua como uma barreira, retendo partículas e impurezas.
No entanto, essa capacidade não é infinita. Quando a carga poluidora é muito alta ou o solo não possui a estrutura adequada, substâncias como a putrescina conseguem percolar, atingindo as águas subterrâneas.
Compreender a dinâmica dessa substância é o primeiro passo para entender como atividades humanas aparentemente isoladas, como a instalação de um cemitério ou o manejo inadequado de efluentes, podem ter um impacto profundo e duradouro nos recursos hídricos que abastecem comunidades inteiras.

A Química da Decomposição: Entendendo a Origem da Putrescina e da Cadaverina
Para compreender a relevância da putrescina na água, é necessário aprofundar-se, ainda que de forma introdutória, nos processos bioquímicos que a geram.
A morte de um organismo desencadeia uma série complexa de reações. Enquanto a macroestrutura do corpo se desfaz pela ação de insetos e condições climáticas, a nível celular, ocorre a autólise e, posteriormente, a putrefação.
É nessa fase que as bactérias, principalmente as anaeróbicas (que não necessitam de oxigênio), assumem o protagonismo.
Elas secretam enzimas chamadas descarboxilases, que atuam sobre os aminoácidos presentes nas proteínas. Dois aminoácidos são particularmente importantes: a ornitina e a lisina.
- Da Ornitina origina-se a Putrescina: A ornitina, por ação da enzima ornitina descarboxilase, perde uma molécula de gás carbônico (CO₂) em um processo chamado descarboxilação, transformando-se em putrescina.
- Da Lisina origina-se a Cadaverina: De forma análoga, a lisina é convertida em cadaverina (1,5-diaminopentano) .
Por essa razão, putrescina e cadaverina são quase sempre mencionadas em conjunto. Elas são as "irmãs gêmeas" da decomposição, responsáveis pelo odor fétido e nauseabundo característico da matéria orgânica em estado avançado de deterioração.
A presença de uma delas na água sugere fortemente a presença da outra, servindo como um duplo sinal de alerta.
O Necrochorume como Vetor
A putrescina não viaja sozinha no subsolo. Ela é um dos componentes do necrochorum*, um líquido viscoso, acinzentado e altamente poluente, liberado durante a decomposição de corpos.
Este efluente é composto por aproximadamente 60% de água, sais minerais e substâncias orgânicas solúveis, incluindo as temidas aminas biogênicas .
O perigo do necrochorume reside na sua capacidade de infiltração. Em locais onde o solo é permeável ou o lençol freático é raso, esse líquido pode percorrer longas distâncias subterrâneas, atuando como um vetor que carrega não apenas putrescina e cadaverina, mas também uma vasta gama de outros contaminantes, como:
- Microrganismos patogênicos: Bactérias e vírus causadores de doenças como hepatite, febre tifoide e gastroenterites.
- Metais pesados: Provenientes de caixões (ferragens, alças) e objetos pessoais, como mercúrio de amálgamas dentárias e chumbo de tintas.
- Compostos químicos: Fluidos de embalsamamento à base de formaldeído, que são biocidas e representam um risco toxicológico adicional .
Assim, detectar a putrescina na água é como encontrar a "ponta do iceberg". Ela sinaliza a presença do necrochorume e, consequentemente, de um coquetel de substâncias potencialmente nocivas à saúde humana e ao equilíbrio ecológico.
Riscos à Saúde Pública e Impactos Ambientais
A presença de putrescina na água não é apenas uma questão estética ou olfativa (embora seu odor desagradável seja um indicativo sensorial importante).
Ela representa um risco concreto para a saúde pública e para a estabilidade dos ecossistemas aquáticos.
A toxicidade intrínseca dessas aminas e a sua associação com outros poluentes tornam o cenário preocupante.
Toxicologia e Efeitos na Saúde Humana
A comunidade científica tem se debruçado sobre os efeitos das aminas biogênicas no organismo.
Estudos, como os realizados por pesquisadores da UNESP, avaliam os efeitos ecotoxicológicos da putrescina e cadaverina .
Embora a ingestão crônica em baixas concentrações ainda seja objeto de estudo, sabe-se que em concentrações elevadas, estas substâncias apresentam riscos comprovados.
O principal problema reside no fato de que a putrescina pode potencializar a toxicidade de outras aminas.
Ela inibe as enzimas responsáveis pela desintoxicação do organismo (como as diaminoxidases), permitindo que compostos como a histamina (também encontrada na decomposição) se acumulem e causem reações adversas.
Os sintomas associados à ingestão de água contaminada com essas substâncias podem incluir:
- Problemas gastrointestinais: náuseas, vômitos, dores abdominais e diarreia.
- Efeitos neurológicos: dores de cabeça, tonturas e, em casos mais extremos, confusão mental.
- Reações alérgicas: urticária, dificuldade respiratória, especialmente em indivíduos mais sensíveis.
- Efeitos carcinogênicos: embora o debate ainda esteja em andamento, algumas aminas biogênicas são precursoras de nitrosaminas, compostos reconhecidamente carcinogênicos, quando em contato com nitritos presentes no organismo ou na água.
Além disso, a água contaminada por putrescina frequentemente abriga patógenos entéricos.
O líquido rico em matéria orgânica do necrochorume é um meio de cultura ideal para bactérias como Escherichia coli, Salmonella e outros microrganismos que representam um risco sanitário imediato para populações que dependem de fontes subterrâneas não tratadas.
Degradação Ambiental e Eutrofização
Quando a água subterrânea contaminada por putrescina exfiltra para corpos d'água superficiais, como rios e lagos, ela carrega consigo uma alta carga de nitrogênio.
A putrescina é rica nesse elemento. Esse aporte de nutrientes desencadeia um processo conhecido como eutrofização.
A eutrofização artificial (causada pelo homem) leva à proliferação excessiva de algas e cianobactérias. Esse fenômeno causa:
- Bloqueio da luz solar: As algas turvam a água, impedindo a fotossíntese de plantas submersas.
- Morte de peixes: Quando essas algas morrem, sua decomposição é feita por bactérias que consomem o oxigênio dissolvido na água, criando "zonas mortas" onde a fauna aquática não consegue sobreviver.
-Produção de toxinas: Muitas cianobactérias liberam cianotoxinas, que são extremamente perigosas para humanos e animais, podendo causar danos ao fígado e ao sistema nervoso.
Portanto, a análise de putrescina na água não é uma ferramenta restrita ao monitoramento de cemitérios.
Ela se expande para a gestão de bacias hidrográficas, estações de tratamento de efluentes e indústrias alimentícias, onde o acúmulo de resíduos orgânicos pode levar à formação dessas aminas e ao consequente desequilíbrio ambiental.
A Geografia da Contaminação: Cemitérios, Aterros e Áreas Urbanas
Se a putrescina é um marcador de decomposição, é crucial mapear quais atividades antrópicas (humanas) funcionam como fontes potenciais desse contaminante para os corpos hídricos.
Embora a decomposição natural de folhas e pequenos animais também gere putrescina, a escala e a concentração em atividades humanas específicas são o que realmente acendem o alerta sanitário.
Cemitérios: O Foco Clássico
A associação mais direta e estudada é com os cemitérios. A Resolução CONAMA nº 335/2003, no Brasil, estabelece critérios para o licenciamento ambiental de cemitérios justamente por reconhecer o potencial poluidor do necrochorume .
A questão central é a geologia do local. Cemitérios implantados em áreas com lençol freático alto ou solos muito porosos (como areia) são bombas-relógio ambientais.
A água da chuva que se infiltra nas sepulturas acelera a decomposição e atua como carreador do necrochorume, levando a putrescina diretamente para o aquífero.
Estudos da Fundação Nacional de Saúde (FUNASA) já demonstraram a contaminação de águas subterrâneas em áreas circunvizinhas a cemitérios, confirmando a necessidade de monitoramento constante .
Aterros Sanitários e Lixões
Apesar de menos comentado, os aterros sanitários (e, principalmente, os lixões a céu aberto) são fontes massivas de putrescina.
A decomposição de resíduos orgânicos (restos de comida, podas de árvores, etc.) em aterros gera um líquido chamado chorume, que é análogo ao necrochorume em sua composição poluente, contendo altíssimas concentrações de aminas biogênicas.
Se o sistema de impermeabilização do aterro falha ou é inexistente, o chorume percola pelo solo, contaminando as águas subterrâneas profundas.
Nesse contexto, a análise de putrescina serve como um parâmetro para verificar a eficiência das camadas de proteção do aterro e o impacto real do empreendimento sobre os recursos hídricos da região.
Áreas Urbanas sem Saneamento
Em cidades que carecem de rede de esgoto, o lançamento de efluentes *in natura* em fossas negras ou diretamente no solo é uma prática comum.
O acúmulo de matéria orgânica fezes e urina, ricos em nitrogênio e proteínas) também gera putrescina.
Com o tempo, o solo saturado dessas áreas permite que esses poluentes atinjam o lençol freático, contaminando poços rasos que muitas vezes são a única fonte de água para populações periféricas.
Este cenário demonstra que a "análise de putrescina na água" é uma ferramenta democrática e abrangente: ela é tão relevante para o gestor de um grande cemitério público, para o engenheiro responsável por um aterro sanitário, quanto para o proprietário de um sítio que deseja garantir a potabilidade da água de seu poço artesiano.
Metodologias Analíticas: Como é Feita a Detecção da Putrescina?
Detectar putrescina na água não é uma tarefa trivial que se resolve com tiras reagentes simples.
Devido à sua natureza química e às baixas concentrações que já representam risco (na ordem de microgramas por litro), são necessárias técnicas laboratoriais sofisticadas e alta precisão instrumental.
Para o público em geral, entender como essa detecção é feita ajuda a compreender o valor e a confiabilidade de um laudo técnico.
A Cromatografia Líquida de Alta Eficiência (HPLC)
A técnica mais difundida e consagrada para a análise de aminas biogênicas, incluindo a putrescina, é a Cromatografia Líquida de Alta Eficiência (HPLC) .
O processo analítico pode ser resumido em algumas etapas principais:
1. Coleta e Preservação: A coleta da água deve seguir protocolos rigorosos, utilizando frascos de vidro âmbar e preservação sob refrigeração, pois a putrescina pode degradar-se ou ser produzida por bactérias na própria amostra se ela não for corretamente armazenada.
2. Derivatização: A putrescina não absorve luz em comprimentos de onda facilmente detectáveis. Por isso, antes da análise, ela passa por um processo químico chamado derivatização, onde é "marcada" com um composto fluorescente (como o dansil-cloreto ou o OPA - ortoftalaldeído). Isso permite que ela seja "vista" pelo detector.
3. Separação: A amostra derivatizada é injetada no cromatógrafo. Uma bomba de alta pressão força a passagem de um solvente (fase móvel) por uma coluna cromatográfica (fase estacionária). A putrescina interage com a coluna de uma maneira única, fazendo com que ela demore um tempo específico para percorrê-la (tempo de retenção).
4. Detecção e Quantificação: Ao sair da coluna, a putrescina derivatizada passa por um detector de fluorescência ou UV-Vis, que gera um sinal. Quanto maior a concentração, maior o sinal. O equipamento compara esse sinal com uma curva de calibração feita com padrões de concentração conhecida, determinando exatamente quanta putrescina existe na amostra de água.
A Cromatografia Gasosa (GC) e Eletroforese Capilar
Alternativamente, a Cromatografia Gasosa acoplada à Espectrometria de Massas (GC-MS) também é utilizada, oferecendo alta sensibilidade e a capacidade de identificar a putrescina com base em seu "espectro de massa", uma impressão digital molecular.
Outra técnica é a Eletroforese Capilar, que separa as moléculas com base na sua mobilidade elétrica dentro de um capilar fino.
A escolha da técnica depende da matriz da amostra (água limpa, efluente, solo) e dos limites de detecção exigidos pela legislação ou pelo objetivo do estudo.
Independentemente do método, é fundamental que o laboratório siga boas práticas de fabricação e normas de acreditação, como as da ABNT NBR ISO/IEC 17025, para assegurar a confiabilidade dos resultados.
Conclusão: A Vigilância Química como Ferramenta de Proteção
A presença de putrescina na água é um fenômeno que transcende a química analítica e toca em questões fundamentais de gestão territorial, saúde coletiva e dignidade humana.
Ao longo deste artigo, buscamos demonstrar que esta simples molécula, originada da decomposição de proteínas, é na verdade um mensageiro químico de eventos indesejados: a falência das barreiras sanitárias de um cemitério, a ineficiência de um aterro, a ausência de saneamento básico ou a contaminação de um aquífero que abastece uma comunidade.
Ignorar a putrescina é ignorar o risco. A água pode estar límpida, inodora e, ainda assim, conter esse marcador de poluição orgânica, acompanhado de patógenos e outros contaminantes invisíveis.
Por isso, a análise laboratorial não é um custo, mas um investimento em segurança.
Para órgãos públicos, é a ferramenta que subsidia a fiscalização e o licenciamento ambiental.
Para empreendedores e gestores, é o termômetro da conformidade legal e da responsabilidade socioambiental.
Para o cidadão comum, é o direito de saber que a água que consome é, de fato, potável e segura.
A gestão sustentável da água passa, inevitavelmente, pelo monitoramento de parâmetros não convencionais.
A putrescina, antes restrita aos laboratórios de pesquisa, consolida-se hoje como um parâmetro essencial em qualquer programa sério de vigilância ambiental e sanitária, protegendo não apenas a saúde das pessoas, mas a integridade dos ecossistemas para as gerações futuras.
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FAQ: Perguntas Frequentes sobre Putrescina na Água
1. Beber água com putrescina causa a morte?
Não imediatamente. A putrescina em si, em baixas concentrações, não é considerada letal de forma aguda. O grande perigo é que ela é um indicador de contaminação fecal e por matéria orgânica. Onde há putrescina, é altamente provável que haja também bactérias patogênicas (como as causadoras de hepatite e gastroenterite) e outros compostos tóxicos, que sim, representam risco grave à saúde .
2. É possível ferver a água para eliminar a putrescina?
Não. Ferver a água é eficaz para matar bactérias e vírus, mas não remove compostos químicos dissolvidos como a putrescina. A fervura pode, inclusive, concentrar alguns poluentes devido à evaporação da água. A remoção eficaz da putrescina exige métodos avançados de tratamento, como a filtração por carvão ativado ou osmose reversa.
3. Como a putrescina chega até a água do meu poço?
Ela chega através da infiltração no solo. Se nas proximidades do seu poço (num razo de centenas de metros ou poucos quilômetros, dependendo do fluxo do lençol freático) houver uma fonte geradora de necrochorume ou chorume (como um cemitério, um lixão ou uma fossa negra), a água da chuva pode carregar esse líquido poluído para as camadas profundas, contaminando o aquífero que abastece o seu poço .
4. Qual a diferença entre putrescina e cadaverina?
A principal diferença está na origem molecular. A putrescina é derivada do aminoácido ornitina, enquanto a cadaverina é derivada do aminoácido lisina. Ambas são produzidas no mesmo processo de decomposição e atuam como indicadores gêmeos de contaminação por matéria orgânica em putrefação, sendo frequentemente analisadas em conjunto .
5. Existe uma lei que obriga a análise de putrescina em água?
Não existe uma lei federal única que determine a análise de putrescina para toda e qualquer água de consumo. O padrão de potabilidade tradicional (Portaria GM/MS 888/2021) não inclui a putrescina como parâmetro obrigatório. No entanto, para fins de licenciamento ambiental, especialmente de cemitérios (conforme Resolução CONAMA 335/2003) e aterros, os órgãos ambientais estaduais e municipais exigem o monitoramento desse composto como parte do estudo de impacto e controle ambiental.





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