Resíduos Invisíveis: Por Que a Análise de Mancozebe e ETU na Água é Essencial
Introdução
A água que chega às torneiras das residências brasileiras passa por rigorosos processos de tratamento e monitoramento.
No entanto, existe uma classe de contaminantes que historicamente recebeu menos atenção nos programas de vigilância: os resíduos de agrotóxicos e seus produtos de degradação.
Entre essas substâncias, o Mancozebe e seu principal metabólito, a Etilenotiouréia (ETU), ocupam posição de destaque tanto pela extensão de uso quanto pelas implicações toxicológicas.
O Mancozebe figura entre os fungicidas mais comercializados no Brasil, com registro para dezenas de culturas agrícolas .
Sua presença potencial em recursos hídricos — seja por escoamento superficial, lixiviação ou contaminação pontual — demanda estratégias analíticas robustas e laboratórios capacitados para detectá-la em concentrações cada vez menores.
Este artigo apresenta uma visão técnica, porém acessível, sobre o que são essas substâncias, por que merecem atenção e como a análise laboratorial especializada se insere no contexto de proteção à saúde pública e ao meio ambiente.

Mancozebe: O fungicida que protege lavouras e gera preocupações
O Mancozebe é um fungicida de contato pertencente ao grupo químico dos etilenobisditiocarbamatos (EBDCs).
Foi desenvolvido na década de 1960 e introduzido no mercado agrícola brasileiro na década seguinte, tornando-se um dos pilares do controle fitossanitário nacional .
Modo de ação e espectro de uso
Sua eficácia decorre de um mecanismo de ação multissítio: o Mancozebe interfere em múltiplas vias metabólicas dos fungos patogênicos, particularmente na inibição de enzimas que contêm grupos sulfidrilas, essenciais para a respiração celular e síntese proteica .
Essa característica confere uma vantagem agronômica significativa: o baixo risco de desenvolvimento de resistência nos patógenos-alvo.
O espectro de controle abrange doenças fúngicas de importância econômica em culturas como batata, tomate, uva, café, soja, citros e diversas hortaliças .
Sua aplicação ocorre predominantemente por pulverização foliar, embora também existam formulações destinadas ao tratamento de sementes .
Implicações regulatórias
Enquanto o Mancozebe mantém registro ativo no Brasil, sua situação regulatória internacional é notavelmente divergente.
A União Europeia proibiu definitivamente sua comercialização e uso em 2021, fundamentando a decisão no princípio da precaução e na proteção da saúde pública .
Dados recentes indicam que o Mancozebe figura entre os dez agrotóxicos mais vendidos no território brasileiro, ao mesmo tempo em que consta na lista de substâncias banidas no mercado europeu .
Essa assimetria regulatória não é meramente uma curiosidade geopolítica — ela tem implicações diretas para a vigilância ambiental e de saúde pública no Brasil.
Se a substância é amplamente utilizada em solo nacional, a possibilidade de sua presença em corpos hídricos que abastecem populações humanas exige monitoramento sistemático.
ETU: O metabólito que amplifica a preocupação
A atenção analítica ao Mancozebe não se limita à molécula original. Seu principal produto de degradação, a Etilenotiouréia (ETU), apresenta propriedades toxicológicas que justificam monitoramento independente e igualmente rigoroso.
Como a ETU se forma
A ETU pode estar presente em diferentes etapas da cadeia de uso do Mancozebe. Primeiramente, ela pode ocorrer como contaminante da formulação comercial durante o armazenamento, especialmente sob condições de temperatura elevada e umidade .
Em segundo lugar, a ETU pode ser formada durante a preparação da calda de pulverização.
Por fim, e talvez de forma mais relevante para a análise ambiental, a degradação do Mancozebe depositado em superfícies tratadas — ou que atinge o solo e a água — pode gerar ETU ao longo do tempo .
Estudos conduzidos em culturas como mamão demonstraram que os resíduos de ETU permanecem detectáveis mesmo dias após a aplicação do Mancozebe, com níveis variando significativamente conforme as condições ambientais .
Por que a ETU preocupa
A ETU é classificada como um possível carcinogênico para seres humanos, com evidências suficientes de carcinogenicidade em estudos com animais .
Adicionalmente, está associada a efeitos de desregulação endócrina da tireoide, toxicidade reprodutiva e riscos para organismos aquáticos e do solo .
A União Europeia estabeleceu limite de resíduos de 50 µg/kg (50 ppb) para ETU . No Brasil, a Portaria GM/MS nº 888/2021, que define os padrões de potabilidade da água para consumo humano, estabelece parâmetros para diversas substâncias químicas, embora a lista de agrotóxicos monitorados permaneça significativamente inferior à de jurisdições europeias .
Essa lacuna regulatória reforça a importância de iniciativas laboratoriais que ofereçam análises além das exigências mínimas legais.
O desafio analítico: detectar o invisível
A determinação de Mancozebe e ETU em água não é uma tarefa analítica trivial. Ambos os analitos apresentam características que exigem metodologias sensíveis e seletivas.
Desafios inerentes ao Mancozebe
O Mancozebe é uma molécula de alta massa molecular (541,1 g/mol) e baixa volatilidade, além de ser instável em condições que favorecem sua degradação a ETU .
Sua determinação direta em matrizes aquosas frequentemente requer derivatização ou quantificação indireta — por exemplo, por meio da determinação do dissulfeto de carbono (CS₂) liberado após digestão ácida .
A complexidade da ETU
A ETU apresenta características que a tornam particularmente desafiadora para análise em água: é uma molécula pequena, polar, com baixo peso molecular e alta solubilidade em água .
Essas propriedades dificultam a extração e concentração convencionais, exigindo técnicas avançadas de preparo de amostra ou sistemas de injeção direta com detecção altamente sensível.
Metodologias de referência
A literatura científica consagra a cromatografia líquida acoplada à espectrometria de massas em tandem (LC-MS/MS) como a técnica de escolha para determinação de ETU em água .
Limites de quantificação na ordem de 0,01 µg/L (10 ng/L) são alcançáveis com metodologias validadas, incluindo etapas de clean-up por partição e uso de padrões internos isotopicamente marcados para compensar efeitos de matriz .
Para o Mancozebe, abordagens baseadas em LC-MS/MS ou GC-MS após conversão a CS₂ são igualmente empregadas, com limites de quantificação que atendem às exigências regulatórias de diferentes jurisdições .
A importância da análise para saúde pública e conformidade ambiental
A presença de Mancozebe e ETU em recursos hídricos não é uma hipótese remota. O uso extensivo do fungicida em áreas agrícolas, combinado com sua persistência ambiental e a formação contínua de ETU, cria cenários plausíveis de contaminação de águas superficiais e subterrâneas.
Além dos padrões visíveis
Um aspecto crítico da análise de agrotóxicos em água é que a contaminação química frequentemente não altera parâmetros organolépticos perceptíveis.
Água transparente, sem odor ou sabor atípico, pode conter concentrações de ETU ou Mancozebe acima de limites de segurança .
Isso significa que a avaliação da potabilidade depende intrinsecamente de análises laboratoriais especializadas — não de inspeção visual.
O papel do monitoramento laboratorial
O Ministério Público Federal, em manifestação recente ao Ministério da Saúde, destacou que a regulamentação brasileira de potabilidade é insuficiente no que tange à fiscalização de agrotóxicos, monitorando cerca de 40 substâncias enquanto a União Europeia acompanha todos os princípios ativos autorizados em seu território .
O documento também aponta a ausência de indicadores de efeito agregado — isto é, a toxicidade resultante de misturas de diferentes pesticidas .
Nesse contexto, laboratórios equipados para análises além do rol mínimo obrigatório cumprem uma função de saúde pública: permitem que gestores, indústrias e a sociedade civil avaliem riscos que, de outra forma, permaneceriam invisíveis.
Análises especializadas para Mancozebe e ETU
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Conclusão
O Mancozebe e a ETU representam um paradoxo da agricultura moderna: uma substância amplamente eficaz no controle de doenças fúngicas, mas cujo perfil toxicológico e persistência ambiental demandam atenção crescente.
A análise laboratorial desses compostos em água não é apenas uma exigência regulatória — é um instrumento de saúde pública e de gestão ambiental responsável.
A divergência entre padrões regulatórios internacionais e a realidade brasileira torna o papel dos laboratórios especializados ainda mais relevante.
Ao oferecer metodologias sensíveis e validadas, contribui-se para preencher lacunas de informação e subsidiar decisões baseadas em evidências.
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FAQ
1. O que é Mancozebe?
É um fungicida de contato do grupo dos ditiocarbamatos, amplamente utilizado na agricultura para controle preventivo de doenças fúngicas em diversas culturas .
2. Por que a ETU é analisada separadamente?
Porque a ETU é o principal produto de degradação do Mancozebe, apresenta toxicidade própria (possível carcinogênico) e pode persistir no ambiente mesmo após a dissipação da molécula original .
3. A água tratada pode conter resíduos de Mancozebe ou ETU?
Processos convencionais de tratamento de água não foram projetados especificamente para remover agrotóxicos. A presença desses compostos depende de múltiplos fatores, incluindo a qualidade da fonte hídrica e a eficiência do tratamento. A análise laboratorial é o único meio de confirmar sua ausência ou presença .
4. Qual a técnica analítica mais adequada para essa determinação?
A cromatografia líquida acoplada à espectrometria de massas em tandem (LC-MS/MS) é considerada a técnica de referência para ETU em água, permitindo limites de detecção na ordem de ng/L .
5. Por que a análise é importante se o Brasil permite o uso do Mancozebe?
Porque a permissão de uso agrícola não elimina a necessidade de monitorar a presença do composto e de seu metabólito em recursos hídricos. A proteção da saúde pública exige vigilância independente do status regulatório do produto .





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