Análise de Fumonisinas B2: Um Pilar para a Segurança de Alimentos e Rações
- Enfermeira Natalia Balsalobre
- 27 de ago. de 2021
- 6 min de leitura
O que são Fumonisinas e por que se Preocupar com a B2?
As fumonisinas são um grupo de micotoxinas, toxinas produzidas naturalmente por fungos do gênero Fusarium, principalmente o Fusarium verticillioides e o Fusarium proliferatum .
Esses fungos são contaminantes comuns de grãos, com uma predileção especial pelo milho e seus derivados, podendo infectar a plantação ainda no campo ou durante o armazenamento inadequado .
Dentro dessa família de toxinas, a fumonisina B1 (FB1) é a mais estudada e abundante, frequentemente representando a maior parte da contaminação total. No entanto, a análise de fumonisinas B2 é igualmente crucial.
A FB2 é a segunda mais prevalente e, juntamente com a FB1, é considerada um dos principais contaminantes em alimentos e rações à base de milho .
Devido à sua ocorrência frequente e aos riscos à saúde, a soma dos níveis de FB1 e FB2 é o parâmetro utilizado por diversas legislações, incluindo a europeia, para estabelecer os limites máximos de contaminação permitidos .
Ignorar a análise dessas toxinas não é uma opção para a indústria alimentícia, de rações e para os produtores rurais.
A contaminação por fumonisinas é um problema silencioso: não altera a cor, o odor ou o sabor dos grãos, tornando a detecção por métodos sensoriais impossível .
Portanto, a análise laboratorial é a única ferramenta capaz de garantir a segurança e a conformidade de um lote, protegendo a saúde de consumidores e animais.

Os Riscos da Exposição: Impactos na Saúde e na Economia
A preocupação com as fumonisinas não é infundada. Essas toxinas são potentes agentes tóxicos que interferem no metabolismo celular, especificamente na síntese de esfingolipídios, componentes essenciais para a estrutura e função das membranas celulares . Essa interferência é o ponto de partida para uma série de efeitos adversos.
- Saúde Animal: Os efeitos são bem documentados e variam conforme a espécie. Em equinos, a ingestão de milho contaminado pode levar à leucoencefalomalácia, uma doença neurológica grave e frequentemente fatal. Em suínos, a intoxicação pode causar edema pulmonar . Em aves e outros animais de produção, os efeitos podem incluir danos hepáticos, comprometimento do sistema imunológico e queda no desempenho produtivo .
- Saúde Humana: A Agência Internacional para Pesquisa sobre o Câncer (IARC) classificou a fumonisina B1 como "possivelmente carcinogênica para humanos" (Grupo 2B) . Estudos epidemiológicos associam a exposição prolongada a essas toxinas a um maior risco de câncer de esôfago em regiões de alto consumo de milho. Além disso, há evidências de que podem causar alterações hepáticas, renais, comprometimento imunológico e até mesmo defeitos do tubo neural em recém-nascidos .
Do ponto de vista econômico, a contaminação também é um grande risco. Lotes de grãos que excedem os limites legais podem ser rejeitados, resultando em prejuízos financeiros, recalls de produtos, danos à reputação da marca e barreiras à exportação .
A Jornada da Análise: Da Amostragem ao Resultado Confiável
A análise de fumonisinas B2 (e B1) é um processo rigoroso e que exige precisão em cada etapa.
Não se trata apenas de "colocar a amostra na máquina". A confiabilidade do resultado final depende de um fluxo de trabalho meticuloso, que começa antes mesmo de o material chegar ao laboratório.
A primeira e talvez mais subestimada etapa é a amostragem. As fumonisinas não se distribuem uniformemente em um lote de grãos.
É possível que um grão esteja altamente contaminado e outro, ao lado, esteja limpo . Por isso, é fundamental seguir protocolos rigorosos, que incluem a coleta de múltiplas alíquotas de diferentes pontos do lote, para que a amostra final seja verdadeiramente representativa .
Após a coleta, a moagem e homogeneização da amostra são passos cruciais para garantir a precisão da análise.
Em seguida, inicia-se o processo laboratorial:
1. Extração: A amostra moída é misturada com uma solução de solvente, geralmente metanol ou acetonitrila em água, para "dissolver" e separar as toxinas da matriz sólida do grão (fibras, amido, proteínas) . Essa etapa requer tempo e agitação adequados.
2. Purificação: O extrato resultante da extração é um líquido escuro e sujo, cheio de interferentes que podem comprometer a análise. Para limpá-lo, são utilizadas técnicas como a cromatografia de imunoafinidade, onde o extrato passa por uma coluna com anticorpos específicos que retêm apenas as fumonisinas. Os interferentes são lavados e descartados, e a toxina é então retirada da coluna com um solvente apropriado .
3. Quantificação: Esta é a etapa onde a análise de fumonisinas B2 é, de fato, realizada. A amostra purificada é injetada em equipamentos de alta tecnologia. Historicamente, a Cromatografia Líquida de Alta Eficiência (CLAE) com detecção por fluorescência é um método comum, mas muitas vezes exige um passo extra de derivatização (reação química) para tornar a toxina detectável .
Métodos Analíticos: Escolhendo a Ferramenta Certa
Existem diferentes metodologias para a análise de fumonisinas, cada uma com suas vantagens e aplicações específicas. A escolha depende do objetivo da análise.
- ELISA (Ensaio Imunoenzimático): É o método de triagem mais rápido e de menor custo. Utiliza anticorpos para detectar a presença das toxinas. É ideal para uma classificação preliminar rápida de lotes, mas pode apresentar reações cruzadas e falsos positivos. É um excelente ponto de partida, mas resultados próximos ao limite legal precisam ser confirmados por métodos mais específicos .
- Cromatografia Líquida de Alta Eficiência (CLAE): Oferece maior precisão e é um método oficialmente aceito para quantificação. Permite separar e quantificar individualmente a FB1, a FB2 e outras variantes . É um método robusto, mas a necessidade de derivatização pode ser um ponto crítico que exige precisão do analista .
- LC-MS/MS (Cromatografia Líquida Acoplada à Espectrometria de Massas): Este é o "padrão ouro" para a análise de micotoxinas . A LC-MS/MS é uma técnica altamente sensível e específica que não necessita de derivatização. Ela identifica e quantifica as moléculas com base em sua massa e fragmentação, o que elimina a maioria das interferências. A principal vantagem é a capacidade de quantificar simultaneamente a fumonisina B2 junto com a B1 e uma vasta gama de outras micotoxinas em uma única análise. Embora o custo seja mais elevado, é a ferramenta definitiva para laboratórios de referência, garantia de qualidade e para atender às exigências dos mercados mais rigorosos .
Conclusão: a Análise como Ferramenta de Gestão de Risco
A análise de fumonisinas B2, em conjunto com a B1, é um componente indispensável da segurança alimentar e da qualidade na cadeia produtiva de grãos.
A contaminação por essas micotoxinas representa um risco concreto à saúde de humanos e animais, além de gerar significativas perdas econômicas para o setor.
Compreender as etapas do processo analítico e os diferentes métodos disponíveis é o primeiro passo para uma gestão de risco eficaz.
Seja por meio de um ELISA para triagem rápida ou da precisa LC-MS/MS para uma análise detalhada, o monitoramento contínuo não é apenas uma exigência legal, mas uma necessidade estratégica.
Produtores, indústrias e exportadores que investem em análises confiáveis protegem sua marca, garantem a conformidade com a legislação e, acima de tudo, cumprem seu papel de zelar pela saúde do consumidor.
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FAQ: Perguntas Frequentes sobre a Análise de Fumonisinas B2
1. A análise de fumonisinas B2 é obrigatória por lei?
Sim. No Brasil, a ANVISA (por meio da RDC nº 138/2017) e o MAPA estabelecem limites máximos tolerados (LMT) para fumonisinas totais (soma de FB1 e FB2) em milho e seus derivados para consumo humano e animal. A análise é, portanto, uma exigência legal para a comercialização desses produtos .
2. Qual a diferença entre os métodos ELISA e LC-MS/MS?
O ELISA é um método de triagem rápido e barato para detectar a presença de toxinas, mas pode ter menor especificidade. A LC-MS/MS é um método confirmatório de altíssima precisão que identifica e quantifica cada toxina individualmente, sendo o "padrão ouro" para análises definitivas e para a detecção de múltiplas toxinas simultaneamente .
3. O que pode causar contaminação por fumonisinas no milho?
A contaminação é favorecida por condições climáticas (temperatura elevada e umidade), danos causados por insetos nos grãos, estresse da planta no campo, atraso na colheita e armazenamento inadequado (com alta umidade e pouca ventilação) .
4. É possível remover as fumonisinas após a contaminação?
As fumonisinas são termoestáveis, ou seja, não são destruídas por processos de cozimento ou fervura comuns . A prevenção por meio de boas práticas agrícolas e a análise para identificar lotes contaminados são as formas mais eficazes de controlar o problema.





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