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Análise de Mercúrio Total em Alimentos: Uma Abordagem Técnica para a Garantia da Segurança Alimentar

23 de fev. de 2021
6 min de leitura

Introdução


A segurança dos alimentos que chegam à nossa mesa é uma preocupação crescente em todo o mundo.


Entre os diversos contaminantes que podem estar presentes nos produtos que consumimos, o mercúrio ocupa uma posição de destaque devido à sua toxicidade e capacidade de acumulação no organismo.


A análise de mercúrio total em alimentos tornou-se, portanto, um pilar fundamental para a saúde pública e para o cumprimento das regulamentações sanitárias.


Neste artigo, convidamos você a compreender os aspectos técnicos e a importância desse tipo de análise, desvendando como os laboratórios especializados atuam para garantir que os alimentos estejam seguros para o consumo.



O Mercúrio nos Alimentos: Origens e Riscos


O mercúrio é um elemento químico que ocorre naturalmente na crosta terrestre, mas sua presença nos alimentos está diretamente relacionada, em grande parte, à poluição ambiental de origem antropogênica.


Atividades industriais, mineração e queima de combustíveis fósseis liberam mercúrio na atmosfera, que, ao se depositar em solos e corpos d'água, inicia um ciclo de contaminação .


O grande problema reside na sua capacidade de transformação. Bactérias presentes em sedimentos aquáticos convertem o mercúrio inorgânico em metilmercúrio, uma forma orgânica extremamente tóxica e que se acumula nos tecidos dos organismos vivos .


Este processo é particularmente relevante na cadeia alimentar aquática, onde o metilmercúrio sofre bioacumulação e biomagnificação.


Isso significa que, à medida que avançamos na cadeia alimentar — do plâncton para os peixes pequenos e destes para os grandes predadores — a concentração de mercúrio aumenta significativamente.


Peixes como atum, cação e peixe-espada, portanto, tendem a apresentar os maiores níveis de contaminação.


A exposição prolongada ao mercúrio, principalmente na forma de metilmercúrio, pode causar danos ao sistema nervoso, especialmente em grupos vulneráveis como gestantes, lactantes e crianças .



O Desafio da Análise: Por que é tão Complexo?


A análise de mercúrio total em alimentos é uma tarefa que exige precisão, tecnologia avançada e rigoroso controle de qualidade.


Diferentemente de outros contaminantes, o mercúrio pode estar presente em concentrações extremamente baixas (na ordem de partes por bilhão), exigindo métodos analíticos com alta sensibilidade e especificidade.


A complexidade também reside na diversidade de matrizes alimentares — desde frutos do mar e carnes até vegetais e cereais.


Cada tipo de alimento possui uma composição química distinta que pode interferir na análise, demandando metodologias específicas de preparo e digestão das amostras . Além disso, o rigor normativo é elevado.


A Agência Europeia de Segurança Alimentar (EFSA) e órgãos reguladores nacionais estabelecem níveis máximos de mercúrio em diferentes categorias de alimentos , exigindo que os métodos laboratoriais alcancem limites de detecção muito inferiores a esses valores para garantir uma avaliação de risco precisa.



Metodologias Avançadas para a Determinação de Mercúrio


Para enfrentar esses desafios, os laboratórios de ponta empregam técnicas instrumentais consolidadas e normatizadas internacionalmente.


A Norma Europeia EN 13806 descreve métodos de referência para a determinação de elementos-traço, incluindo o mercúrio, em alimentos .


Destacam-se três abordagens principais:


  • Análise Direta de Mercúrio (DMA): Esta técnica, padronizada pela EN 13806-3, permite a determinação do mercúrio total de forma rápida e com mínimo preparo de amostra . A amostra sólida ou líquida é submetida a uma decomposição térmica em uma corrente de oxigênio. O mercúrio liberado é então concentrado por amalgamação em um material específico e finalmente detectado por espectrometria de absorção atômica . Este método é altamente eficiente para a rotina laboratorial, oferecendo resultados precisos em uma ampla faixa de concentração (validado de 0,005 mg/kg a 5,20 mg/kg), com baixo custo operacional e reduzida geração de resíduos . Estudos de validação demonstram que o método alcança limites de detecção extremamente baixos, como 0,0014 mg/kg, garantindo a conformidade com as regulamentações mais rigorosas .


  • Espectrometria de Absorção Atômica com Geração de Vapor Frio (CVAAS): Descrita na EN 13806-1, esta técnica tradicionalmente requer uma etapa de digestão da amostra sob pressão, conforme a EN 13805, para decompor a matéria orgânica . Posteriormente, o mercúrio presente na solução é reduzido a mercúrio elementar (vapor), que é então quantificado por absorção atômica. É um método robusto e amplamente utilizado, com sensibilidade adequada para a maioria das matrizes alimentares, tendo sido validado em faixas que vão de 0,015 mg/kg a 5,06 mg/kg .


  • Espectrometria de Fluorescência Atômica com Vapor Frio (CVAFS): Esta técnica, detalhada na EN 13806-2, oferece um nível de sensibilidade ainda superior às anteriores, sendo frequentemente empregada para a determinação de concentrações ultra-traço de mercúrio . Assim como a CVAAS, requer uma etapa de digestão da amostra. A detecção por fluorescência atômica confere maior seletividade e limites de detecção mais baixos, sendo a escolha ideal para análises que exigem o mais alto grau de precisão, como em estudos de monitoramento ambiental e de exposição humana .



A Importância da Escolha do Método e da Rastreabilidade


A seleção da metodologia mais adequada para a análise de mercúrio total em alimentos depende de diversos fatores, como o tipo de alimento, o nível de concentração esperado e o objetivo da análise (controle de qualidade, conformidade regulatória, pesquisa).


Não há uma técnica "melhor" em termos absolutos, mas sim a mais apropriada para cada contexto.


Um laboratório que atua nesse segmento deve, obrigatoriamente, possuir um rigoroso sistema de garantia da qualidade.


Isso inclui a participação em ensaios de proficiência interlaboratoriais (como as comparações interlaboratoriais mencionadas na EN 13806-1) para verificar a exatidão de seus resultados .


O uso de materiais de referência certificados (CRMs) é outra prática essencial para assegurar que as medições sejam confiáveis, rastreáveis e comparáveis em nível internacional .


Em última análise, a escolha do método deve garantir a geração de dados robustos, que são a base para uma tomada de decisão segura na indústria e para a proteção do consumidor.



Conclusão


A análise de mercúrio total em alimentos é um pilar essencial para a segurança alimentar.


Por meio de tecnologias analíticas avançadas e métodos rigorosamente validados — como os descritos na série de normas EN 13806 —, é possível monitorar e quantificar esse contaminante com a precisão necessária para proteger a saúde da população .


A contaminação por mercúrio, seja ela oriunda de fontes naturais ou antrópicas, representa um risco real.


O uso de técnicas como a Análise Direta (DMA), a Absorção Atômica com Vapor Frio (CVAAS) e a Fluorescência Atômica (CVAFS) permite que a indústria alimentícia e os órgãos de fiscalização cumpram as regulamentações e garantam que os produtos disponíveis no mercado estejam dentro dos níveis seguros de consumo .


Mais do que uma exigência técnica, trata-se de um compromisso com a qualidade e com a confiança do consumidor.



A Importância de Escolher o Lab2bio


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FAQ - Perguntas Frequentes


1. O que significa "mercúrio total" em uma análise de alimentos?

" Mercúrio total" refere-se à quantificação de todas as formas químicas de mercúrio presentes em uma amostra de alimento, tanto o mercúrio inorgânico quanto o orgânico (como o metilmercúrio). Essa é a métrica geralmente exigida pelas legislações para controle de segurança.


2. Quais alimentos são mais comumente analisados?

Peixes e frutos do mar são os mais monitorados devido ao fenômeno da bioacumulação. No entanto, a análise também é relevante para outros alimentos como cereais, cogumelos, sal, suplementos alimentares e produtos de origem animal, que podem ser contaminados via solo ou ração .


3. Qual é o limite máximo de mercúrio permitido nos alimentos?

Os limites variam conforme a legislação de cada país e o tipo de alimento. Na Europa, o Regulamento (UE) 2023/915 estabelece, por exemplo, limites de 0,5 mg/kg para a maioria dos peixes, 1,0 mg/kg para grandes predadores, e 0,1 mg/kg para suplementos alimentares e sal .


4. A cocção dos alimentos elimina o mercúrio?

Não completamente. Estudos mostram que o cozimento não degrada o metilmercúrio, a forma mais tóxica e presente nos peixes. Embora o mercúrio inorgânico possa ser parcialmente reduzido ou lixiviado para a água de cozimento, as concentrações de metilmercúrio permanecem estáveis, não sendo possível eliminar o risco por meio do cozimento .


5. Por que a análise é tão cara e demorada?

O custo e o tempo estão atrelados à necessidade de equipamentos de alta precisão, reagentes de grau analítico, pessoal altamente qualificado e a complexidade do preparo da amostra. Cada matriz alimentar pode exigir um protocolo específico de digestão para garantir que o mercúrio seja extraído sem interferências.



 
 
 

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