top of page

Selênio na Água: Da Essencialidade à Toxicidade - Uma Análise Científica Completa

Introdução: O Selênio: Elemento Químico e Sua Dualidade


O selênio (Se) é um elemento químico de número atômico 34 que integra o grupo 16 da Tabela Periódica, situando-se entre o enxofre e o telúrio, elementos com os quais compartilha semelhanças químicas significativas .


Descoberto em 1817 pelo químico sueco Jöns Jacob Berzelius durante a produção de ácido sulfúrico, recebeu o nome em homenagem à deusa grega da Lua, Selene, devido ao brilho característico de alguns de seus compostos .


Este elemento exibe uma dualidade biológica fundamental: em concentrações vestigiais, é um micronutriente essencial para a maioria dos organismos vivos, mas em concentrações elevadas transforma-se num potente tóxico ambiental.


A essencialidade do selênio foi estabelecida em 1957, quando pesquisadores identificaram seu papel protetor contra necrose hepática em animais.


Posteriormente, descobriu-se que este elemento é componente fundamental de enzimas antioxidantes como as glutationas peroxidases, que protegem as células contra danos oxidativos .


No organismo humano, o selênio desempenha funções vitais no metabolismo da tireoide, na resposta imune e na proteção cardiovascular.


O caráter tóxico do selênio manifesta-se quando ultrapassa os limites fisiológicos. A intoxicação por selênio pode causar desde problemas dermatológicos (perda de cabelo e unhas) até distúrbios neurológicos graves e teratogenicidade (malformações fetais) .


Esta estreita janela entre deficiência e toxicidade torna a monitorização precisa de suas concentrações em diferentes matrizes, especialmente na água, uma questão de saúde pública e ambiental crítica.



2️⃣ Formas de Selênio na Água e Seu Comportamento


Na água, o selênio ocorre em múltiplas formas químicas que determinam sua mobilidade, biodisponibilidade e toxicidade.


Compreender esta especiação química é essencial para avaliar riscos e desenvolver estratégias eficazes de monitoramento e remediação.



Espécies de Selênio em Meio Aquático


O comportamento do selênio nos sistemas aquáticos é governado por seu estado de oxidação, que varia conforme as condições físico-químicas do meio:


  • Selênio elementar (Se⁰): Forma sólida, pouco solúvel, estável em ambientes redutores.

  • Seleneto (Se²⁻): Encontrado em condições fortemente redutoras, forma complexos metálicos insolúveis.

  • Selenito (SeO₃²⁻, estado +4): Forma solúvel predominante em condições ligeiramente oxidantes a neutras. Apresenta maior toxicidade e mobilidade moderada no ambiente.

  • Selenato (SeO₄²⁻, estado +6): Altamente solúvel e móvel em ambientes oxidantes. É a forma mais biodisponível para absorção por plantas e organismos aquáticos .



Dinâmica Ambiental e Transformações


A distribuição destas espécies em corpos d'água não é estática. Processos naturais como variações de pH, potencial redox (Eh), presença de matéria orgânica e atividade microbiana catalisam transformações entre as diferentes formas de selênio .


  • Meios oxidantes (como águas superficiais bem oxigenadas) favorecem a formação de selenato.

  • Meios redutores (como sedimentos de fundo ou águas contaminadas por matéria orgânica) promovem a redução a selenito ou mesmo a selênio elementar.


Esta complexa dinâmica explica por que simples medições de "selênio total" são insuficientes para avaliação de risco, sendo necessária a especiação química para compreensão adequada do comportamento e toxicidade deste elemento em sistemas aquáticos.



3️⃣ Métodos Analíticos para Determinação de Selênio


A quantificação precisa do selênio na água representa um desafio analítico significativo, especialmente quando necessário determinar concentrações em nível de traços (µg/L).


O laboratório moderno dispõe de um arsenal de técnicas instrumentais sofisticadas, cada uma com suas aplicações específicas, vantagens e limitações.



Técnicas Espectrométricas Avançadas


Espectrometria de Massa com Plasma Indutivamente Acoplado (ICP-MS)


O ICP-MS constitui atualmente a técnica de referência para determinação de elementos traço em matrizes aquosas, oferecendo sensibilidade excepcional (capacidade de detectar concentrações na faixa de ng/L) e especificidade elementar .


  • Princípio Operacional: A amostra é nebulizada e introduzida num plasma de argônio com temperaturas aproximadas de 10.000 K, onde ocorre atomização e ionização completa dos elementos. Os íons são separados conforme sua relação massa/carga e quantificados por um detector.

  • Aplicação ao Selênio: O ICP-MS permite determinar selênio total com extraordinária precisão. Quando acoplado a sistemas de cromatografia líquida (LC-ICP-MS), torna-se possível a especiação química, diferenciando e quantificando individualmente selenato, selenito e espécies orgânicas.



Espectroscopia de Absorção Atômica (AAS)


A AAS representa uma técnica consolidada e amplamente disponível para análise de metais e metaloides, incluindo o selênio .


Variações Técnicas


  • AAS com chama: Utiliza uma chama ar-acetileno para atomizar a amostra. Oferece simplicidade operacional, mas sensibilidade limitada para selênio.

  • AAS com forno de grafite (GF-AAS): A amostra é vaporizada num forno de grafite eletrotermicamente aquecido. Proporciona sensibilidade significativamente superior à versão com chama, sendo adequada para determinação de selênio em níveis de µg/L.


Ambas as técnicas AAS requerem que o selênio esteja numa forma atômica e utilizam lâmpadas de catodo oco que emitem radiação no comprimento de onda característico do elemento (196,0 nm), cuja absorção é proporcional à concentração .



Métodos Convencionais e Colorimétricos


Métodos Colorimétricos


Estas técnicas baseiam-se em reações químicas específicas que geram compostos coloridos, cuja intensidade, medida por espectrofotometria, correlaciona-se com a concentração do analito .


  • Exemplo Prático: O método da 3,3'-diaminobenzidina (DAB) é um procedimento clássico para determinação de selênio. O selenito reage com a DAB em meio ácido, formando um complexo piazoselenol de cor amarelo-marrom, medido a 420 nm.

  • Contexto de Uso: Embora menos sensíveis que as técnicas instrumentais, os métodos colorimétricos oferecem custo acessível e simplicidade operacional, sendo úteis para análises de triagem ou em laboratórios com recursos limitados.



A seleção da metodologia apropriada depende do objetivo analítico (selênio total vs. espécies), das concentrações esperadas, dos recursos instrumentais disponíveis e dos requisitos de precisão e sensibilidade exigidos pelo contexto regulatório ou científico.



4️⃣ Regulamentação e Impactos Ambientais


A gestão dos níveis de selênio em corpos d'água é rigorosamente regulamentada devido aos seus efeitos bifásicos sobre os organismos vivos.


O estabelecimento de limites legais busca equilibrar a necessidade deste micronutriente com a prevenção de sua toxicidade.



Marcos Regulatórios Nacionais e Internacionais


  • Água Potável: A Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) estabeleceu um Nível Máximo de Contaminante (MCL) de 50 µg/L para selênio total na água destinada ao consumo humano. Esta referência é amplamente adotada ou adaptada por diversos países e organismos internacionais .

  • Águas Superficiais e Efluentes: Os limites para descarga em rios, lagos ou mares são tipicamente mais restritivos, frequentemente situando-se na faixa de 5 a 20 µg/L, visando proteger os organismos aquáticos, notadamente mais sensíveis à toxicidade do selênio do que os mamíferos.

  • Contexto Brasileiro: No Brasil, a Resolução CONAMA nº 430/2011 estabelece padrões de lançamento de efluentes, sendo que o valor para selênio total é de 0,3 mg/L (300 µg/L) para a maioria dos corpos receptores. A Portaria GM/MS nº 888/2021, que dispõe sobre padrões de potabilidade, define o Valor Máximo Permitido (VMP) de 50 µg/L para selênio total na água para consumo humano.



Consequências Ecológicas da Contaminação


A presença de selênio em concentrações elevadas nos ecossistemas aquáticos desencadeia uma cadeia de impactos:


1. Bioacumulação e Biomagnificação: O selênio, especialmente na forma de selenato, é eficientemente absorvido por fitoplâncton e plantas aquáticas. Estas formas de vida constituem a base da cadeia alimentar, permitindo que o elemento seja transferido e concentrado progressivamente em níveis tróficos superiores (zooplâncton, peixes herbívoros, peixes carnívoros e, finalmente, aves e mamíferos que se alimentam de peixes) .


2. Toxicidade Reprodutiva: Em peixes e aves aquáticas, o selênio em excesso interfere no desenvolvimento embrionário, causando malformações, edemas e mortalidade larval elevada. Estas anomalias comprometem seriamente a sustentabilidade das populações selvagens.


3. Alteração da Estrutura das Comunidades: Espécies sensíveis são eliminadas, enquanto espécies tolerantes proliferam, reduzindo a biodiversidade e a resiliência do ecossistema.


O caso emblemático do Reservório de Kesterson, na Califórnia (década de 1980), onde a irrigação com águas ricas em selênio provenientes de solos agrícolas resultou em mortalidade em massa e graves malformações em aves aquáticas, permanece como um alerta histórico sobre os perigos da mobilização ambiental deste elemento.



5️⃣ A Análise de Selênio no Contexto Laboratorial


O laboratório de análise de águas desempenha um papel fundamental na vigilância ambiental e na proteção da saúde pública, transformando amostras em dados confiáveis que orientam decisões críticas.


O processo analítico para determinação de selênio é meticuloso e segue rigorosos protocolos de garantia da qualidade.



O Ciclo da Análise: Da Amostragem ao Resultado


1. Planejamento e Amostragem Representativa: A etapa inicial e frequentemente subestimada. A coleta deve utilizar frascos adequados (geralmente de plástico, acidificados para metais), seguir protocolos que evitem contaminação e documentar as condições da amostragem (pH, temperatura, condutividade). Para especiação, a estabilidade da amostra é crucial, exigindo, por vezes, preservação imediata ou análise rápida.


2. Pré-tratamento e Digestão: A maioria das técnicas requer que o selênio esteja em solução homogênea. A digestão ácida (com HNO₃, HCl ou misturas, como aqua regia) em sistemas de micro-ondas ou blocos de aquecimento converte todas as formas de selênio em uma única espécie mensurável (geralmente Se(IV) ou Se(VI)) e decompõe interferentes orgânicos .


3. Análise Instrumental e Especiação: Conforme detalhado na Seção 3, a amostra digerida é submetida à técnica eleita (ICP-MS, AAS, etc.). Para especiação, técnicas de separação cromatográfica são acopladas ao detector, permitindo quantificar individualmente selenito, selenato e, por vezes, selenometionina.


4. Controle de Qualidade e Validação: Cada série analítica inclui brancos (para verificar contaminação), padrões de calibração, materiais de referência certificados (MRC) e duplicatas para avaliar precisão e exatidão. A rastreabilidade metrológica aos padrões nacionais e internacionais é fundamental.



Nossos Serviços e Diferenciais Laboratoriais


Nossa instituição oferece um portfólio completo de serviços para análise de selênio e outros elementos em matrizes aquosas, alinhados às mais exigentes normas técnicas:


  • Determinação de Selênio Total por ICP-MS, garantindo a sensibilidade necessária para atender aos limites regulatórios mais rigorosos.

  • Especiação Química de Selênio via Cromatografia Líquida acoplada a ICP-MS (LC-ICP-MS), essencial para estudos de mobilidade, biodisponibilidade e toxicologia ambiental.

  • Acreditação e Confiabilidade: Nossos métodos são validados e executados sob um Sistema da Qualidade robusto, assegurando a confiabilidade técnica e a aceitabilidade legal dos resultados perante órgãos ambientais e de fiscalização.


A análise de selênio transcende uma simples medição laboratorial; é uma ferramenta de diagnóstico ambiental poderosa.


Ao quantificar com precisão este elemento, nosso laboratório contribui para a segurança hídrica, a preservação dos ecossistemas e o cumprimento da legislação por parte de indústrias, empresas de saneamento e órgãos públicos.



6️⃣ Conclusão


A análise da concentração de selênio na água emerge como uma disciplina científica de importância capital na intersecção entre saúde pública, gestão ambiental e desenvolvimento industrial sustentável.


O selênio, em sua essência dual de nutriente vital e potente toxina, exige uma abordagem analítica sofisticada e criteriosa.


Este artigo percorreu a jornada do selênio – desde suas propriedades químicas fundamentais, passando pelo comportamento complexo nos sistemas aquáticos, até as metodologias analíticas de ponta empregadas para sua quantificação e especiação.


Compreende-se, assim, que monitorar o "selênio total" é apenas o primeiro passo; a verdadeira avaliação de risco reside na capacidade de discernir suas formas químicas específicas, que determinam sua mobilidade, biodisponibilidade e, em última instância, seu impacto nos organismos vivos.


Os rigorosos limites regulatórios estabelecidos mundialmente não são meras formalidades burocráticas.


Eles representam a fronteira científica e ética que separa o benefício do prejuízo, fundamentados em décadas de pesquisa toxicológica e em lições ambientais dolorosamente aprendidas.


Neste contexto, o papel do laboratório analítico moderno é insubstituível. Através da aplicação de técnicas como a Espectrometria de Massa com Plasma Indutivamente Acoplado (ICP-MS) e do compromisso inabalável com a garantia da qualidade, transformamos amostras de água em dados confiáveis e acionáveis.


Estes dados fundamentam decisões críticas: desde a aprovação de uma nova fonte de abastecimento público até a otimização de sistemas de tratamento de efluentes industriais, passando pela avaliação de impactos ambientais de grandes empreendimentos.


Portanto, investir em uma análise precisa e abrangente do selênio na água significa investir em prevenção, em conformidade legal e em responsabilidade socioambiental.


Significa assegurar que este elemento essencial, porém perigoso, seja mantido dentro dos estreitos limites que permitam usufruir de seus benefícios sem sucumbir aos seus perigos.



A Importância de Escolher o Lab2bio


Com anos de experiência no mercado, o Lab2bio possui um histórico comprovado de sucesso em análises laboratoriais.


Empresas do setor alimentício, indústrias farmacêuticas, laboratórios e outros segmentos confiam no Lab2bio para garantir a segurança e qualidade da água utilizada em suas atividades.


Evitar riscos de contaminação é um compromisso com a saúde de seus clientes e com a longevidade do seu negócio. Investir em análises periódicas é um diferencial que fortalece sua reputação e evita prejuízos futuro.


Para saber mais sobre Análise de Água com o Laboratório LAB2BIO - Análises de Ar, Água, Alimentos, Swab e Efluentes ligue para (11) 91138-3253 (WhatsApp) ou (11) 2443-3786 ou clique aqui e solicite seu orçamento.



7️⃣ Perguntas Frequentes (FAQ)


1. Por que o selênio é tão perigoso na água se é um nutriente essencial?

O selênio apresenta uma janela muito estreita entre deficiência e toxicidade. Enquanto quantidades vestigiais são cruciais para funções enzimáticas antioxidantes, concentrações ligeiramente elevadas podem causar desde problemas dermatológicos e neurológicos em humanos até graves malformações e mortalidade em peixes e aves aquáticas. Na água, ele entra facilmente na cadeia alimentar, acumulando-se nos organismos .



2. Quais são os principais métodos para analisar selênio em água?

Os métodos variam conforme a necessidade. Para máxima sensibilidade e especiação química (diferenciar selenato, selenito, etc.), a Espectrometria de Massa com Plasma Indutivamente Acoplado (ICP-MS) é a técnica de referência. A Espectroscopia de Absorção Atômica com Forno de Grafite (GF-AAS) oferece boa sensibilidade para selênio total. Métodos colorimétricos, como o da diaminobenzidina, são opções mais acessíveis para triagem .



3. Qual o limite seguro de selênio na água potável?

A Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) e a legislação brasileira (Portaria GM/MS nº 888/2021) estabelecem o limite máximo de 50 microgramas por litro (µg/L) para selênio total na água para consumo humano. Para águas superficiais e proteção da vida aquática, os limites são normalmente muito mais baixos, na faixa de 5 a 20 µg/L .



4. Quais indústrias ou atividades geram água com alto teor de selênio?

A mineração (especialmente de carvão e metais) é uma fonte significativa, com efluentes podendo conter de 0,03 a 2 mg/L, chegando a casos extremos de 80 mg/L . Outras fontes incluem a refinação de metais, a fabricação de vidros e pigmentos, a queima de combustíveis fósseis e a agricultura em solos naturalmente ricos em selênio, cuja irrigação pode lixiviar o elemento para corpos d'água .



5. É possível remover o excesso de selênio da água?

Sim, existem tecnologias eficazes. A mais comum para águas residuais industriais é a co-precipitação química com sais de ferro (como cloreto férrico). O hidróxido de ferro formado adsorve e arrasta o selênio para fora da solução, com eficiências que podem superar 90%. Outras técnicas incluem troca iônica, osmose inversa e tratamentos biológicos especializados .





 
 
 

Comentários


Não é mais possível comentar esta publicação. Contate o proprietário do site para mais informações.

Solicite sua Análise

Entre em contato com o nosso time técnico para fazer uma cotação

whatsapp.png

WhatsApp

yrr-removebg-preview_edited.png
58DD365B-BBCA-4AB3-A605-C66138340AA2.PNG

Telefone Matriz
(11) 2443-3786

Unidade - SP - Matriz

Rua Quinze de Novembro, 85  

Sala 113 e 123 - Centro

Guarulhos, SP - 07011-030

(11) 91138-3253

(11) 2443-3786

Termos de Uso

Sobre Nós

Reconhecimentos

Fale Conosco

Unidade - Minas Gerais

Rua São Mateus, 236 - Sala 401

São Mateus, Juiz de Fora - MG, 36025-000

(11) 91138-3253

(11) 2443-3786

Unidade - Espírito Santo

Rua Ebenezer Francisco Barbosa, 06  Santa Mônica - Vila Velha, ES      29105-210

(11) 91138-3253

(11) 2443-3786

© 2026 por Lab2Bio - Grupo JND Soluções - Desenvolvido por InfoWeb Solutions

bottom of page