Análise da Concentração de Diclorometano na Água: Metodologias, Riscos e a Importância do Monitoramento Preciso
- Enfermeira Natalia Balsalobre
- 10 de mar. de 2021
- 10 min de leitura
Introdução: A Presença Invisível e seus Impactos
No cenário contemporâneo de industrialização e desenvolvimento tecnológico, a qualidade dos recursos hídricos emerge como um dos parâmetros mais críticos para a saúde pública e o equilíbrio ambiental.
Entre os diversos contaminantes que podem comprometer a potabilidade da água e a integridade dos ecossistemas aquáticos, os compostos orgânicos voláteis (COVs) ocupam uma posição de destaque, dada sua ampla utilização industrial e potencial toxicidade.
Nesse contexto, o diclorometano (DCM), também conhecido como cloreto de metileno, configura-se como um solvente de relevância singular, cuja monitoração precisa é imperativa.
Este artigo tem como objetivo elucidar, com rigor técnico mas em linguagem acessível, os aspectos fundamentais relacionados à análise da concentração de diclorometano na água.
Abordaremos desde as propriedades físico-químicas deste composto e suas principais vias de contaminação ambiental, até as metodologias analíticas mais avançadas e sensíveis empregadas para sua detecção e quantificação.
A compreensão deste processo não é mera formalidade laboratorial; trata-se de um pilar essencial para a avaliação de risco, a conformidade com a legislação vigente e a tomada de decisões que visam a proteção da saúde coletiva e do meio ambiente.
A precisão na análise da concentração de diclorometano na água transcende a esfera técnica, transformando-se em um ato de responsabilidade social e ambiental.
Através deste estudo detalhado, esperamos contribuir para a disseminação de conhecimento qualificado sobre o tema, capacitando gestores, profissionais da área ambiental, estudantes e cidadãos interessados a compreenderem a importância deste parâmetro e os protocolos envolvidos em sua determinação confiável.

Diclorometano – Propriedades, Usos e Vias de Contaminação Hídrica
Para compreender a necessidade e a complexidade da análise da concentração de diclorometano na água, é fundamental conhecer o agente químico em questão.
O diclorometano (CH₂Cl₂) é um hidrocarboneto clorado, na forma de um líquido incolor e volátil, com um odor adocicado e característico. Suas propriedades intrínsecas o tornam um solvente extremamente versátil:
Alta Volatilidade e Poder Solvente: É eficaz na dissolução de uma vasta gama de substâncias, como gorduras, resinas, tintas e acetatos, evaporando rapidamente após a aplicação.
Não-Inflamabilidade: Ao contrário de muitos solventes orgânicos tradicionais, apresenta baixo risco de ignição em condições normais de uso.
Devido a essas características, seu emprego é disseminado em setores industriais e comerciais diversos: como agente de desengraxe e limpeza de peças metálicas; como solvente em formulações de tintas, vernizes e removedores; na produção de filmes de acetato de celulose; e como agente de extração na indústria farmacêutica e de alimentos (ex.: descafeinação). Historicamente, também teve uso significativo como propelente de aerossóis.
As vias de contaminação da água por diclorometano são múltiplas e, frequentemente, relacionadas a falhas nos sistemas de contenção ou a práticas inadequadas de descarte:
1. Descarte Industrial Inadequado: O efluente líquido de processos industriais que utilizam DCM, se não tratado adequadamente, pode alcançar corpos d'água superficiais ou infiltrar-se no solo, contaminando lençóis freáticos.
2. Aterros Sanitários e Industriais: O descarte de resíduos sólidos impregnados com diclorometano em aterros pode resultar na formação de lixiviado – um líquido altamente poluente que percola através dos resíduos. Este lixiviado, se não coletado e tratado, migra para o subsolo, contaminando os aquíferos.
3. Vazamentos e Acidentes: Vazamentos em tanques de armazenamento subterrâneos, tubulações ou durante o transporte podem liberar quantidades significativas do solvente para o ambiente.
4. Atmosférica (Deposição): Sendo volátil, o DCM evaporase facilmente para a atmosfera. Posteriormente, pode ser removido pela chuva ou por processos de deposição úmida e seca, retornando aos solos e corpos d'água.
Uma vez na água, o diclorometano apresenta mobilidade moderada a alta, podendo persistir por semanas a meses antes de se degradar, principalmente por volatilização ou, em menor escala, por biodegradação microbiana.
Sua solubilidade relativamente baixa em água (cerca de 20 g/L a 20°C) significa que ele tende a formar fases separadas em caso de derrames significativos, mas mesmo em baixas concentrações, seu impacto pode ser relevante devido à toxicidade.
Toxicologia e Regulamentação – Por que Monitorar é Imperativo?
A determinação precisa da análise da concentração de diclorometano na água não é um fim em si mesmo, mas uma ferramenta crucial para a avaliação de risco.
A exposição humana ao DCM, principalmente via ingestão de água contaminada ou inalação de vapores durante o banho (desgaseificação), está associada a uma série de efeitos adversos à saúde.
Do ponto de vista toxicológico, o diclorometano é metabolicamente convertido no organismo em monóxido de carbono, que se liga à hemoglobina, formando carboxihemoglobina.
Isso reduz a capacidade de transporte de oxigênio no sangue, podendo causar hipóxia, especialmente em indivíduos com condições cardiopulmonares preexistentes.
A exposição aguda a elevadas concentrações pode levar a sintomas como tontura, náusea, fadiga, dor de cabeça, irritação das vias respiratórias e, em casos extremos, perda de consciência e morte.
A exposição crônica, mesmo a níveis mais baixos, é objeto de grande preocupação. A Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC) classificou o diclorometano como provavelmente carcinogênico para humanos (Grupo 2A), com evidências suficientes em animais de laboratório e limitadas em humanos, particularmente associado ao câncer de fígado, pulmão e sistema nervoso central.
Diante desses riscos, órgãos reguladores nacionais e internacionais estabelecem limites máximos permissíveis para a presença de diclorometano na água.
No Brasil, a Portaria GM/MS Nº 888, de 4 de maio de 2021, que dispõe sobre os padrões de potabilidade da água, estabelece o Valor Máximo Permitido (VMP) para o diclorometano em 0,02 mg/L (20 µg/L).
Este valor extremamente baixo, na casa dos microgramas por litro, reflete o alto grau de preocupação com este contaminante e impõe um grande desafio analítico: é necessária uma metodologia sensível e seletiva o suficiente para detectar e quantificar com confiança concentrações tão diminutas.
A análise da concentração de diclorometano na água torna-se, portanto, uma atividade de compliance regulatório obrigatória para concessionárias de água, indústrias que geram efluentes e empreendimentos em áreas com suspeita de contaminação do solo. Ignorar este monitoramento significa descumprir a lei e, mais grave, colocar em risco a saúde de comunidades.
Metodologias Analíticas Avançadas – Do Campo ao Laboratório
A detecção e quantificação confiável do diclorometano em matrizes aquosas, especialmente nos rigorosos limites impostos pela legislação, exigem uma cadeia analítica robusta, que se inicia com uma amostragem impecável e culmina em técnicas instrumentais de alta sensibilidade. Vamos detalhar este processo.
A. Amostragem e Preservação: A Base da Confiabilidade
Todo o rigor analítico posterior pode ser comprometido por uma amostragem inadequada.
Para a análise da concentração de diclorometano na água, as amostras são coletadas em frascos de vidro âmbar com septo e tampa de rosca, minimizando a exposição à luz e a perdas por volatilização.
É crucial evitar a formação de bolhas de ar (headspace) no frasco, pois o DCM migraria para esta fase gasosa, subestimando sua concentração na água.
No ato da coleta, os frascos são preenchidos completamente, transbordando, e imediatamente fechados.
A preservação é tipicamente feita com ácido clorídrico (HCl) até pH < 2, o que inibe a atividade biológica e estabiliza os compostos. As amostras são então refrigeradas a 4°C e transportadas ao laboratório no mais breve prazo possível.
B. Técnicas de Extração e Pré-concentração: Isolando o Alvo
Como a concentração de interesse é muito baixa, é necessário isolar e concentrar o diclorometano da matriz aquosa antes da análise instrumental. Duas técnicas são amplamente empregadas e consideradas padrão-ouro:
1. Purga e Armadilha (Purge and Trap - P&T): Esta é a técnica mais comum e sensível. Uma corrente de gás inerte (geralmente hélio ou nitrogênio) é borbulhada através da amostra de água em um dispositivo específico. Os compostos voláteis, como o DCM, são "varridos" (purged) da fase aquosa e carreados para uma armadilha contendo um material adsorbente (ex.: carvão ativado, Tenax®). Após um tempo definido, a armadilha é aquecida rapidamente (desorção térmica), liberando os compostos concentrados diretamente para o sistema de análise.
2. Microextração em Fase Sólida no Espaço de Vapor (HS-SPME): Uma técnica mais moderna e solvent-free. Uma fibra de sílica fundida, revestida com um material adsorbente/polimérico, é exposta ao espaço de vapor (headspace) acima da amostra aquosa, que está em equilíbrio com a fase líquida. O DCM volatilizado é adsorvido pela fibra. Posteriormente, a fibra é introduzida no injetor do equipamento, onde o calor desorve os analitos para a coluna cromatográfica.
C. Separação e Detecção: O Coração da Análise
A identificação e quantificação inequívocas do diclorometano, em meio a possíveis interferentes, são realizadas pelo acoplamento de duas poderosas técnicas:
1. Cromatografia Gasosa (GC): A amostra concentrada (da P&T ou SPME) é introduzida em um cromatógrafo a gás. Dentro de uma coluna capilar longa e estreita, revestida internamente com uma fase estacionária, os diferentes compostos da mistura são separados com base em suas interações físico-químicas com esta fase. Cada composto, incluindo o DCM, possui um tempo de retenção característico, uma "impressão digital temporal".
2. Espectrometria de Massas (MS): O efluente da coluna GC, agora com os compostos separados, entra no espectrômetro de massas. As moléculas são ionizadas (geralmente por impacto eletrônico), fragmentadas, e os íons resultantes são separados de acordo com sua relação massa/carga (m/z). O detector produz um espectro de massas, que é um padrão de fragmentos único para cada substância. Para o diclorometano, íons característicos como m/z 49, 84 e 86 são monitorados.
O acoplamento GC-MS é, portanto, a técnica de escolha para a análise da concentração de diclorometano na água.
Ele fornece três níveis de certeza: o tempo de retenção (GC), o espectro de massas completo (MS) para identificação bibliotecária, e a possibilidade de usar íons específicos para quantificação com alta sensibilidade e seletividade, livre da maioria das interferências.
D. Controle de Qualidade Analítica (CQA)
Um laboratório competente opera dentro de um rigoroso protocolo de CQA. Isso inclui a calibração diária do equipamento com padrões certificados de concentração conhecida, a análise de brancos (água livre de analitos) para verificar contaminações, a utilização de padrões internos (compostos análogos adicionados à amostra para corrigir variações instrumentais) e a análise de spikes (adição de uma quantidade conhecida do analito à amostra) para verificar a eficiência do método.
Estes procedimentos garantem que o resultado da análise da concentração de diclorometano na água seja preciso, exato e rastreável.
Interpretação de Resultados e Ações Corretivas
Receber um laudo de análise contendo a concentração de diclorometano na água é o ponto de partida para uma tomada de decisão informada. A interpretação deve considerar:
Comparação com o VMP (0,02 mg/L): O resultado é inferior, igual ou superior ao limite legal? Valores abaixo do VMP indicam conformidade para potabilidade.
Tendência Temporal: Em monitoramentos contínuos (ex.: poços de monitoramento), o nível está estável, aumentando ou diminuindo? Uma tendência de aumento é um sinal de alerta, mesmo que o valor absoluto ainda esteja abaixo do limite.
Contexto da Amostragem: De onde veio a amostra? Água tratada na torneira, efluente industrial, água subterrânea de uma área contaminada?
Se a concentração detectada for superior ao VMP, ações corretivas devem ser imediatamente consideradas.
Para sistemas de abastecimento público, a interrupção do uso da fonte contaminada e o tratamento específico são imperativos.
Tecnologias de remediação para águas contaminadas com diclorometano incluem:
Aeração por Arraste (Air Stripping): Explorando a alta volatilidade do DCM, a água é pulverizada em torres onde uma corrente de ar arrasta o contaminante para fora da fase líquida. O ar contaminado pode então ser tratado por carvão ativado ou destruição térmica.
Carvão Ativado Granular (CAG): A água passa por leitos de carvão ativado, onde o diclorometano é adsorvido na superfície extremamente porosa do material. É eficaz para poluentes em baixas concentrações.
Oxidação Avançada (AOPs): Processos como a combinação de ozônio/peróxido de hidrogênio ou luz UV/peróxido geram radicais hidroxila altamente reativos, que degradam o DCM a compostos menos nocivos, como dióxido de carbono e cloreto.
A escolha da tecnologia depende de fatores como vazão, concentração, custo e destino final da água tratada.
O importante é que a análise da concentração de diclorometano na água, precisa e confiável, fornece o dado essencial para dimensionar e selecionar a solução de remediação mais adequada.

Conclusão: Da Análise Precisa à Preservação da Vida
O percurso realizado ao longo deste artigo deixa evidente que a análise da concentração de diclorometano na água é muito mais do que uma simples determinação quantitativa.
Ela representa um elo crítico na cadeia da segurança hídrica, uma atividade que conjuga conhecimento científico avançado, rigor metodológico e um profundo senso de responsabilidade socioambiental.
Através de técnicas sofisticadas como a Cromatografia Gasosa acoplada à Espectrometria de Massas (GC-MS), precedidas por protocolos meticulosos de amostragem e preparo, é possível monitorar com fidelidade a presença deste contaminante em níveis ínfimos, atendendo aos rigorosos padrões de potabilidade.
Este monitoramento é a ferramenta que permite transformar a abstração do risco toxicológico em dados concretos e acionáveis.
Portanto, investir em uma análise da concentração de diclorometano na água realizada por um laboratório competente e acreditado não é uma despesa, mas um investimento vital.
É um investimento na saúde das populações, na preservação dos ecossistemas aquáticos, na conformidade legal das organizações e na sustentabilidade do uso dos recursos hídricos.
É, em última instância, a aplicação da ciência em sua forma mais nobre: a serviço da proteção e do bem-estar da vida.
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FAQ – Perguntas Frequentes sobre Análise de Diclorometano na Água
1. O que é diclorometano e onde ele é encontrado?
Diclorometano (DCM) ou cloreto de metileno é um solvente orgânico clorado, volátil e incolor, utilizado industrialmente em processos de desengraxe, na fabricação de tintas e removedores, na produção de filmes e como agente de extração (ex.: cafeína). Pode contaminar a água através de descarte inadequado de efluentes industriais, vazamentos ou lixiviação de aterros.
2. Por que é perigoso encontrar diclorometano na água?
A ingestão ou exposição a vapores de água contaminada com DCM pode causar efeitos agudos como tontura e náusea, e efeitos crônicos, incluindo potencial carcinogenicidade (classificado como provável carcinogênico para humanos pela IARC). Por isso, seu controle é rigoroso.
3. Qual o limite permitido de diclorometano na água potável no Brasil?
Conforme a Portaria GM/MS Nº 888/2021, o Valor Máximo Permitido (VMP) para diclorometano na água para consumo humano é de 0,02 miligramas por litro (mg/L), equivalente a 20 microgramas por litro (µg/L).
4. Como o laboratório detecta concentrações tão baixas (na casa dos µg/L)?
Utilizamos metodologias de alta sensibilidade. A mais comum é a técnica de Purga e Armadilha (Purge and Trap) acoplada à Cromatografia Gasosa com Espectrometria de Massas (GC-MS). Esta combinação permite isolar, concentrar, separar e identificar o DCM com precisão e seletividade, mesmo em traços.
5. Quem precisa realizar esta análise?
Concessionárias de água e esgoto (controle da potabilidade).
Indústrias que utilizam DCM em seus processos (monitoramento de efluentes).
Empresas gerenciadoras de águas subterrâneas ou envolvidas em investigação de áreas contaminadas (Passivo Ambiental).
Qualquer empreendimento ou propriedade que possua suspeita de contaminação em sua fonte hídrica.
6. Como devo coletar uma amostra de água para análise de diclorometano?
A amostragem é crítica e segue protocolos rígidos. Recomenda-se fortemente contatar o laboratório antes da coleta. Geralmente, utilizam-se frascos de vidro âmbar específicos, preenchidos completamente (sem bolhas), preservados com ácido e mantidos refrigerados. O laboratório fornecerá os frascos adequados e as instruções detalhadas.





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