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Análise da Concentração de Diclorometano na Água: Metodologias, Riscos e a Importância do Monitoramento Preciso

Introdução: A Presença Invisível e seus Impactos


No cenário contemporâneo de industrialização e desenvolvimento tecnológico, a qualidade dos recursos hídricos emerge como um dos parâmetros mais críticos para a saúde pública e o equilíbrio ambiental.


Entre os diversos contaminantes que podem comprometer a potabilidade da água e a integridade dos ecossistemas aquáticos, os compostos orgânicos voláteis (COVs) ocupam uma posição de destaque, dada sua ampla utilização industrial e potencial toxicidade.


Nesse contexto, o diclorometano (DCM), também conhecido como cloreto de metileno, configura-se como um solvente de relevância singular, cuja monitoração precisa é imperativa.


Este artigo tem como objetivo elucidar, com rigor técnico mas em linguagem acessível, os aspectos fundamentais relacionados à análise da concentração de diclorometano na água.


Abordaremos desde as propriedades físico-químicas deste composto e suas principais vias de contaminação ambiental, até as metodologias analíticas mais avançadas e sensíveis empregadas para sua detecção e quantificação.


A compreensão deste processo não é mera formalidade laboratorial; trata-se de um pilar essencial para a avaliação de risco, a conformidade com a legislação vigente e a tomada de decisões que visam a proteção da saúde coletiva e do meio ambiente.


A precisão na análise da concentração de diclorometano na água transcende a esfera técnica, transformando-se em um ato de responsabilidade social e ambiental.


Através deste estudo detalhado, esperamos contribuir para a disseminação de conhecimento qualificado sobre o tema, capacitando gestores, profissionais da área ambiental, estudantes e cidadãos interessados a compreenderem a importância deste parâmetro e os protocolos envolvidos em sua determinação confiável.



Diclorometano – Propriedades, Usos e Vias de Contaminação Hídrica


Para compreender a necessidade e a complexidade da análise da concentração de diclorometano na água, é fundamental conhecer o agente químico em questão.


O diclorometano (CH₂Cl₂) é um hidrocarboneto clorado, na forma de um líquido incolor e volátil, com um odor adocicado e característico. Suas propriedades intrínsecas o tornam um solvente extremamente versátil:


  • Alta Volatilidade e Poder Solvente: É eficaz na dissolução de uma vasta gama de substâncias, como gorduras, resinas, tintas e acetatos, evaporando rapidamente após a aplicação.

  • Não-Inflamabilidade: Ao contrário de muitos solventes orgânicos tradicionais, apresenta baixo risco de ignição em condições normais de uso.


Devido a essas características, seu emprego é disseminado em setores industriais e comerciais diversos: como agente de desengraxe e limpeza de peças metálicas; como solvente em formulações de tintas, vernizes e removedores; na produção de filmes de acetato de celulose; e como agente de extração na indústria farmacêutica e de alimentos (ex.: descafeinação). Historicamente, também teve uso significativo como propelente de aerossóis.


As vias de contaminação da água por diclorometano são múltiplas e, frequentemente, relacionadas a falhas nos sistemas de contenção ou a práticas inadequadas de descarte:


1. Descarte Industrial Inadequado: O efluente líquido de processos industriais que utilizam DCM, se não tratado adequadamente, pode alcançar corpos d'água superficiais ou infiltrar-se no solo, contaminando lençóis freáticos.


2. Aterros Sanitários e Industriais: O descarte de resíduos sólidos impregnados com diclorometano em aterros pode resultar na formação de lixiviado – um líquido altamente poluente que percola através dos resíduos. Este lixiviado, se não coletado e tratado, migra para o subsolo, contaminando os aquíferos.


3. Vazamentos e Acidentes: Vazamentos em tanques de armazenamento subterrâneos, tubulações ou durante o transporte podem liberar quantidades significativas do solvente para o ambiente.


4. Atmosférica (Deposição): Sendo volátil, o DCM evaporase facilmente para a atmosfera. Posteriormente, pode ser removido pela chuva ou por processos de deposição úmida e seca, retornando aos solos e corpos d'água.


Uma vez na água, o diclorometano apresenta mobilidade moderada a alta, podendo persistir por semanas a meses antes de se degradar, principalmente por volatilização ou, em menor escala, por biodegradação microbiana.


Sua solubilidade relativamente baixa em água (cerca de 20 g/L a 20°C) significa que ele tende a formar fases separadas em caso de derrames significativos, mas mesmo em baixas concentrações, seu impacto pode ser relevante devido à toxicidade.



Toxicologia e Regulamentação – Por que Monitorar é Imperativo?


A determinação precisa da análise da concentração de diclorometano na água não é um fim em si mesmo, mas uma ferramenta crucial para a avaliação de risco.


A exposição humana ao DCM, principalmente via ingestão de água contaminada ou inalação de vapores durante o banho (desgaseificação), está associada a uma série de efeitos adversos à saúde.


Do ponto de vista toxicológico, o diclorometano é metabolicamente convertido no organismo em monóxido de carbono, que se liga à hemoglobina, formando carboxihemoglobina.


Isso reduz a capacidade de transporte de oxigênio no sangue, podendo causar hipóxia, especialmente em indivíduos com condições cardiopulmonares preexistentes.


A exposição aguda a elevadas concentrações pode levar a sintomas como tontura, náusea, fadiga, dor de cabeça, irritação das vias respiratórias e, em casos extremos, perda de consciência e morte.


A exposição crônica, mesmo a níveis mais baixos, é objeto de grande preocupação. A Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC) classificou o diclorometano como provavelmente carcinogênico para humanos (Grupo 2A), com evidências suficientes em animais de laboratório e limitadas em humanos, particularmente associado ao câncer de fígado, pulmão e sistema nervoso central.


Diante desses riscos, órgãos reguladores nacionais e internacionais estabelecem limites máximos permissíveis para a presença de diclorometano na água.


No Brasil, a Portaria GM/MS Nº 888, de 4 de maio de 2021, que dispõe sobre os padrões de potabilidade da água, estabelece o Valor Máximo Permitido (VMP) para o diclorometano em 0,02 mg/L (20 µg/L).


Este valor extremamente baixo, na casa dos microgramas por litro, reflete o alto grau de preocupação com este contaminante e impõe um grande desafio analítico: é necessária uma metodologia sensível e seletiva o suficiente para detectar e quantificar com confiança concentrações tão diminutas.


A análise da concentração de diclorometano na água torna-se, portanto, uma atividade de compliance regulatório obrigatória para concessionárias de água, indústrias que geram efluentes e empreendimentos em áreas com suspeita de contaminação do solo. Ignorar este monitoramento significa descumprir a lei e, mais grave, colocar em risco a saúde de comunidades.



Metodologias Analíticas Avançadas – Do Campo ao Laboratório


A detecção e quantificação confiável do diclorometano em matrizes aquosas, especialmente nos rigorosos limites impostos pela legislação, exigem uma cadeia analítica robusta, que se inicia com uma amostragem impecável e culmina em técnicas instrumentais de alta sensibilidade. Vamos detalhar este processo.



A. Amostragem e Preservação: A Base da Confiabilidade


Todo o rigor analítico posterior pode ser comprometido por uma amostragem inadequada.


Para a análise da concentração de diclorometano na água, as amostras são coletadas em frascos de vidro âmbar com septo e tampa de rosca, minimizando a exposição à luz e a perdas por volatilização.


É crucial evitar a formação de bolhas de ar (headspace) no frasco, pois o DCM migraria para esta fase gasosa, subestimando sua concentração na água.


No ato da coleta, os frascos são preenchidos completamente, transbordando, e imediatamente fechados.


A preservação é tipicamente feita com ácido clorídrico (HCl) até pH < 2, o que inibe a atividade biológica e estabiliza os compostos. As amostras são então refrigeradas a 4°C e transportadas ao laboratório no mais breve prazo possível.



B. Técnicas de Extração e Pré-concentração: Isolando o Alvo


Como a concentração de interesse é muito baixa, é necessário isolar e concentrar o diclorometano da matriz aquosa antes da análise instrumental. Duas técnicas são amplamente empregadas e consideradas padrão-ouro:


1. Purga e Armadilha (Purge and Trap - P&T): Esta é a técnica mais comum e sensível. Uma corrente de gás inerte (geralmente hélio ou nitrogênio) é borbulhada através da amostra de água em um dispositivo específico. Os compostos voláteis, como o DCM, são "varridos" (purged) da fase aquosa e carreados para uma armadilha contendo um material adsorbente (ex.: carvão ativado, Tenax®). Após um tempo definido, a armadilha é aquecida rapidamente (desorção térmica), liberando os compostos concentrados diretamente para o sistema de análise.


2. Microextração em Fase Sólida no Espaço de Vapor (HS-SPME): Uma técnica mais moderna e solvent-free. Uma fibra de sílica fundida, revestida com um material adsorbente/polimérico, é exposta ao espaço de vapor (headspace) acima da amostra aquosa, que está em equilíbrio com a fase líquida. O DCM volatilizado é adsorvido pela fibra. Posteriormente, a fibra é introduzida no injetor do equipamento, onde o calor desorve os analitos para a coluna cromatográfica.



C. Separação e Detecção: O Coração da Análise


A identificação e quantificação inequívocas do diclorometano, em meio a possíveis interferentes, são realizadas pelo acoplamento de duas poderosas técnicas:


1. Cromatografia Gasosa (GC): A amostra concentrada (da P&T ou SPME) é introduzida em um cromatógrafo a gás. Dentro de uma coluna capilar longa e estreita, revestida internamente com uma fase estacionária, os diferentes compostos da mistura são separados com base em suas interações físico-químicas com esta fase. Cada composto, incluindo o DCM, possui um tempo de retenção característico, uma "impressão digital temporal".


2. Espectrometria de Massas (MS): O efluente da coluna GC, agora com os compostos separados, entra no espectrômetro de massas. As moléculas são ionizadas (geralmente por impacto eletrônico), fragmentadas, e os íons resultantes são separados de acordo com sua relação massa/carga (m/z). O detector produz um espectro de massas, que é um padrão de fragmentos único para cada substância. Para o diclorometano, íons característicos como m/z 49, 84 e 86 são monitorados.


O acoplamento GC-MS é, portanto, a técnica de escolha para a análise da concentração de diclorometano na água.


Ele fornece três níveis de certeza: o tempo de retenção (GC), o espectro de massas completo (MS) para identificação bibliotecária, e a possibilidade de usar íons específicos para quantificação com alta sensibilidade e seletividade, livre da maioria das interferências.



D. Controle de Qualidade Analítica (CQA)


Um laboratório competente opera dentro de um rigoroso protocolo de CQA. Isso inclui a calibração diária do equipamento com padrões certificados de concentração conhecida, a análise de brancos (água livre de analitos) para verificar contaminações, a utilização de padrões internos (compostos análogos adicionados à amostra para corrigir variações instrumentais) e a análise de spikes (adição de uma quantidade conhecida do analito à amostra) para verificar a eficiência do método.


Estes procedimentos garantem que o resultado da análise da concentração de diclorometano na água seja preciso, exato e rastreável.



Interpretação de Resultados e Ações Corretivas


Receber um laudo de análise contendo a concentração de diclorometano na água é o ponto de partida para uma tomada de decisão informada. A interpretação deve considerar:


  • Comparação com o VMP (0,02 mg/L): O resultado é inferior, igual ou superior ao limite legal? Valores abaixo do VMP indicam conformidade para potabilidade.

  • Tendência Temporal: Em monitoramentos contínuos (ex.: poços de monitoramento), o nível está estável, aumentando ou diminuindo? Uma tendência de aumento é um sinal de alerta, mesmo que o valor absoluto ainda esteja abaixo do limite.

  • Contexto da Amostragem: De onde veio a amostra? Água tratada na torneira, efluente industrial, água subterrânea de uma área contaminada?


Se a concentração detectada for superior ao VMP, ações corretivas devem ser imediatamente consideradas.


Para sistemas de abastecimento público, a interrupção do uso da fonte contaminada e o tratamento específico são imperativos.


Tecnologias de remediação para águas contaminadas com diclorometano incluem:


  • Aeração por Arraste (Air Stripping): Explorando a alta volatilidade do DCM, a água é pulverizada em torres onde uma corrente de ar arrasta o contaminante para fora da fase líquida. O ar contaminado pode então ser tratado por carvão ativado ou destruição térmica.

  • Carvão Ativado Granular (CAG): A água passa por leitos de carvão ativado, onde o diclorometano é adsorvido na superfície extremamente porosa do material. É eficaz para poluentes em baixas concentrações.

  • Oxidação Avançada (AOPs): Processos como a combinação de ozônio/peróxido de hidrogênio ou luz UV/peróxido geram radicais hidroxila altamente reativos, que degradam o DCM a compostos menos nocivos, como dióxido de carbono e cloreto.


A escolha da tecnologia depende de fatores como vazão, concentração, custo e destino final da água tratada.


O importante é que a análise da concentração de diclorometano na água, precisa e confiável, fornece o dado essencial para dimensionar e selecionar a solução de remediação mais adequada.



Conclusão: Da Análise Precisa à Preservação da Vida


O percurso realizado ao longo deste artigo deixa evidente que a análise da concentração de diclorometano na água é muito mais do que uma simples determinação quantitativa.


Ela representa um elo crítico na cadeia da segurança hídrica, uma atividade que conjuga conhecimento científico avançado, rigor metodológico e um profundo senso de responsabilidade socioambiental.


Através de técnicas sofisticadas como a Cromatografia Gasosa acoplada à Espectrometria de Massas (GC-MS), precedidas por protocolos meticulosos de amostragem e preparo, é possível monitorar com fidelidade a presença deste contaminante em níveis ínfimos, atendendo aos rigorosos padrões de potabilidade.


Este monitoramento é a ferramenta que permite transformar a abstração do risco toxicológico em dados concretos e acionáveis.


Portanto, investir em uma análise da concentração de diclorometano na água realizada por um laboratório competente e acreditado não é uma despesa, mas um investimento vital.


É um investimento na saúde das populações, na preservação dos ecossistemas aquáticos, na conformidade legal das organizações e na sustentabilidade do uso dos recursos hídricos.


É, em última instância, a aplicação da ciência em sua forma mais nobre: a serviço da proteção e do bem-estar da vida.



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FAQ – Perguntas Frequentes sobre Análise de Diclorometano na Água


1. O que é diclorometano e onde ele é encontrado?

Diclorometano (DCM) ou cloreto de metileno é um solvente orgânico clorado, volátil e incolor, utilizado industrialmente em processos de desengraxe, na fabricação de tintas e removedores, na produção de filmes e como agente de extração (ex.: cafeína). Pode contaminar a água através de descarte inadequado de efluentes industriais, vazamentos ou lixiviação de aterros.



2. Por que é perigoso encontrar diclorometano na água?

A ingestão ou exposição a vapores de água contaminada com DCM pode causar efeitos agudos como tontura e náusea, e efeitos crônicos, incluindo potencial carcinogenicidade (classificado como provável carcinogênico para humanos pela IARC). Por isso, seu controle é rigoroso.



3. Qual o limite permitido de diclorometano na água potável no Brasil?

Conforme a Portaria GM/MS Nº 888/2021, o Valor Máximo Permitido (VMP) para diclorometano na água para consumo humano é de 0,02 miligramas por litro (mg/L), equivalente a 20 microgramas por litro (µg/L).



4. Como o laboratório detecta concentrações tão baixas (na casa dos µg/L)?

Utilizamos metodologias de alta sensibilidade. A mais comum é a técnica de Purga e Armadilha (Purge and Trap) acoplada à Cromatografia Gasosa com Espectrometria de Massas (GC-MS). Esta combinação permite isolar, concentrar, separar e identificar o DCM com precisão e seletividade, mesmo em traços.



5. Quem precisa realizar esta análise?


  • Concessionárias de água e esgoto (controle da potabilidade).

  • Indústrias que utilizam DCM em seus processos (monitoramento de efluentes).

  • Empresas gerenciadoras de águas subterrâneas ou envolvidas em investigação de áreas contaminadas (Passivo Ambiental).

  • Qualquer empreendimento ou propriedade que possua suspeita de contaminação em sua fonte hídrica.



6. Como devo coletar uma amostra de água para análise de diclorometano?

A amostragem é crítica e segue protocolos rígidos. Recomenda-se fortemente contatar o laboratório antes da coleta. Geralmente, utilizam-se frascos de vidro âmbar específicos, preenchidos completamente (sem bolhas), preservados com ácido e mantidos refrigerados. O laboratório fornecerá os frascos adequados e as instruções detalhadas.





 
 
 

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