Análise de Cilindrospermopsinas na Água: importância, riscos e controle da qualidade
- Enfermeira Natalia Balsalobre
- 4 de ago. de 2021
- 5 min de leitura
Introdução
A qualidade da água destinada ao consumo humano depende do controle de diferentes parâmetros microbiológicos, físicos e químicos.
Entre os contaminantes que merecem atenção estão as cianotoxinas, substâncias produzidas por determinadas espécies de cianobactérias que podem se desenvolver em ambientes aquáticos, especialmente quando as condições ambientais favorecem a formação de florações.
Entre essas toxinas está a cilindrospermopsina, também conhecida como CYN. A presença dessa substância em mananciais utilizados para abastecimento representa uma preocupação para a segurança da água, principalmente em locais sujeitos à ocorrência de florações de cianobactérias.
Por esse motivo, a análise de cilindrospermopsinas na água é uma ferramenta importante para avaliar a qualidade da água e apoiar ações de monitoramento, tratamento e controle.

O que são as cilindrospermopsinas?
As cilindrospermopsinas são cianotoxinas produzidas por determinadas cianobactérias, organismos fotossintetizantes que podem ocorrer naturalmente em águas doces.
Entre os gêneros associados à produção dessas toxinas estão Raphidiopsis — anteriormente classificado em parte como Cylindrospermopsis —, Aphanizomenon e Chrysosporum.
A ocorrência de cianobactérias pode aumentar quando há condições favoráveis, como disponibilidade elevada de nutrientes, temperatura adequada e alterações nas características do ambiente aquático.
Um aspecto particularmente importante das cilindrospermopsinas é que uma parcela significativa da toxina pode estar dissolvida na água, e não necessariamente retida dentro das células das cianobactérias.
A Organização Mundial da Saúde destaca que essa fração dissolvida pode representar uma parte importante da concentração total encontrada na água.
Isso significa que a ausência aparente de uma floração visível não é, isoladamente, suficiente para descartar a possibilidade de presença da toxina.
Por que realizar a análise de cilindrospermopsinas na água?
A principal importância da análise está na possibilidade de identificar e quantificar a presença da cianotoxina, fornecendo informações objetivas para a avaliação da qualidade da água.
A exposição às cilindrospermopsinas é especialmente relevante quando águas superficiais afetadas por florações são utilizadas como fonte de abastecimento.
A ingestão de água contaminada é considerada uma das principais vias de exposição no contexto de água para consumo humano
A Organização Mundial da Saúde estabeleceu um valor-guia provisório para cilindrospermopsinas de 0,7 µg/L para exposição ao longo da vida e de 3 µg/L para exposição de curto prazo, considerando o total de cilindrospermopsinas, incluindo as frações livres e associadas às células.
Esses valores são provisórios em razão das incertezas existentes na base de dados toxicológicos.
No Brasil, a Portaria GM/MS nº 888/2021 estabelece para água destinada ao consumo humano um Valor Máximo Permitido (VMP) de 1,0 µg/L para cilindrospermopsinas.
A mesma norma estabelece valores para outras cianotoxinas, como microcistinas e saxitoxinas.
Assim, a realização de análises laboratoriais é fundamental para verificar se a concentração encontrada está de acordo com o padrão aplicável ao tipo de água avaliada.
Quando o monitoramento de cilindrospermopsinas é especialmente importante?
A necessidade de monitoramento está diretamente relacionada às características do manancial e à ocorrência de cianobactérias.
A legislação brasileira estabelece procedimentos específicos para sistemas de abastecimento que utilizam mananciais superficiais.
Quando a contagem de cianobactérias excede 20.000 células/mL, deve ser realizada análise de microcistinas, saxitoxinas e cilindrospermopsinas no ponto de captação, com frequência mínima semanal enquanto essa condição persistir.
A regulamentação também prevê situações em que o monitoramento das cianotoxinas pode ser realizado diretamente na água bruta que entra na estação de tratamento.
Esse acompanhamento é importante porque a concentração de cianobactérias e de suas toxinas pode variar ao longo do tempo.
Portanto, uma análise pontual pode representar apenas a condição daquele momento, enquanto programas de monitoramento permitem acompanhar alterações e identificar situações de risco com maior rapidez.
Como é realizada a análise de cilindrospermopsinas?
A determinação de cilindrospermopsinas exige métodos analíticos capazes de detectar concentrações muito baixas da substância.
Entre as técnicas utilizadas para investigação de cianotoxinas estão métodos cromatográficos e técnicas baseadas em espectrometria de massas.
A OMS apresenta diferentes abordagens analíticas para cilindrospermopsinas, incluindo ELISA, HPLC com detector UV/PDA e LC-MS/MS.
A cromatografia líquida associada à espectrometria de massas em tandem (LC-MS/MS) apresenta elevada especificidade e sensibilidade e é uma das abordagens empregadas para a determinação de cilindrospermopsinas em água.
A escolha da metodologia depende de fatores como matriz da amostra, concentração esperada, limite de quantificação necessário e objetivo da análise.
Em determinadas situações, pode ser necessária uma etapa de concentração da amostra antes da determinação instrumental.
A literatura técnica da OMS descreve, por exemplo, procedimentos envolvendo extração em fase sólida e posterior análise por LC-MS/MS.
Por isso, a análise não deve ser entendida simplesmente como um teste de presença ou ausência.
A qualidade do resultado depende de todo o processo, incluindo coleta, preservação, transporte, preparação da amostra, metodologia analítica e interpretação dos resultados.
Cilindrospermopsinas e tratamento da água
A identificação da toxina também possui importância para a avaliação da eficiência do tratamento da água.
Um dos desafios relacionados às cilindrospermopsinas é justamente a presença da fração dissolvida.
Dependendo das condições do manancial e do tratamento aplicado, a remoção das células de cianobactérias não significa necessariamente a eliminação completa da toxina dissolvida.
Por essa razão, o controle de cianotoxinas deve estar associado a uma estratégia mais ampla de gerenciamento de riscos, envolvendo o acompanhamento do manancial, identificação de florações, monitoramento das cianobactérias e análise da água em diferentes etapas do sistema de abastecimento.
A própria OMS recomenda uma abordagem baseada na avaliação e gestão dos riscos relacionados às cianobactérias e suas toxinas, desde o manancial até o consumidor.
A importância de um laboratório especializado
A análise de cilindrospermopsinas na água requer infraestrutura, metodologia adequada e controle rigoroso das etapas analíticas.
Um laboratório especializado pode auxiliar empresas, sistemas de abastecimento, responsáveis técnicos e organizações que necessitam avaliar a qualidade de seus recursos hídricos, fornecendo resultados analíticos que contribuam para decisões relacionadas ao monitoramento e controle da água.
Além do resultado numérico, é importante considerar a unidade utilizada, o limite de quantificação do método e o valor de referência aplicável à finalidade da água analisada.
Dessa forma, a análise laboratorial se torna uma ferramenta de apoio à gestão da qualidade da água, prevenção de riscos e verificação da eficiência dos processos de tratamento.
Conclusão
A presença de cilindrospermopsinas na água está diretamente relacionada à ocorrência de determinadas cianobactérias e constitui um parâmetro relevante para a avaliação da segurança da água destinada ao consumo humano.
No Brasil, a Portaria GM/MS nº 888/2021 estabelece 1,0 µg/L como Valor Máximo Permitido para cilindrospermopsinas na água para consumo humano.
O monitoramento ganha importância especialmente em mananciais superficiais sujeitos à proliferação de cianobactérias.
Nesse contexto, a análise de cilindrospermopsinas na água permite identificar e quantificar a presença dessa cianotoxina, contribuindo para o acompanhamento da qualidade da água e para a adoção de medidas de controle quando necessário.
Para obter resultados confiáveis, é fundamental contar com um laboratório que utilize metodologia apropriada, procedimentos controlados e critérios técnicos compatíveis com a finalidade da análise.
Perguntas frequentes — FAQ
1. O que são cilindrospermopsinas?
São cianotoxinas produzidas por determinadas espécies de cianobactérias, principalmente em ambientes de água doce. Podem ocorrer tanto associadas às células quanto dissolvidas na água.
2. Qual é o limite de cilindrospermopsinas na água potável no Brasil?
A Portaria GM/MS nº 888/2021 estabelece 1,0 µg/L como Valor Máximo Permitido para cilindrospermopsinas na água destinada ao consumo humano.
3. A água pode conter cilindrospermopsinas mesmo sem apresentar uma floração visível?
Sim. A presença visual de uma floração não é suficiente para determinar a concentração da toxina. Além disso, uma parcela significativa das cilindrospermopsinas pode estar dissolvida na água.
4. A análise de cilindrospermopsinas é igual à análise de cianobactérias?
Não. A análise de cianobactérias avalia os organismos presentes na água, enquanto a análise de cilindrospermopsinas determina a concentração da cianotoxina.
5. A análise pode ser feita em água bruta?
Sim. O monitoramento pode ser realizado em água bruta, especialmente em situações previstas na legislação para sistemas que utilizam mananciais superficiais.
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6. Quais técnicas podem ser utilizadas para analisar cilindrospermopsinas?
Dependendo do objetivo e da matriz, podem ser utilizadas técnicas como ELISA, HPLC e LC-MS/MS. A escolha deve considerar a sensibilidade e a especificidade necessárias para o resultado pretendido.
7. Por que fazer a análise em laboratório?
Porque a determinação de concentrações baixas de cianotoxinas exige métodos analíticos apropriados e controle das etapas de coleta, preparação e análise da amostra.





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